quarta-feira, 28 de julho de 2010

Eternidade.




Eu sofro de mais, mas apenas porque quero coisas grandes de mais. Enquanto outros se conformam com coisas pequenas.
Eles procuram coisas pequenas, porque são mais fáceis de lidar. Causam menos sofrimento por virem com mais facilidade. Mas, fácil vem, fácil vai...
Desculpem-me, mas não é isso o que procuro. O que me move, é o que quero, e vou ir atrás disso, custe o que custar.
Mas primeiro eu preciso decidir o que quero.
Talvez eu só queira querer...
Eu estou reconstruindo coisas... Logo chego lá.
Espere pra ver... Ou vem comigo, pras grandes coisas.
Vem comigo pro eterno.

terça-feira, 27 de julho de 2010

Lembrança de mim.




Eu amo lembrar como chegamos onde nos encontramos nesse exato momento.
Tão bom pensar no que passou, no que ficou marcado, e saber que ficou marcado porque tudo mudaria naquele instante.
Tudo mudou naquele instante.
Tanta coisa deu errado, e eu sinto falta de certos fatos, de certos gritos e de certos atos. De certas palavras e sorrisos.
E a música dos seus desejos guia a alma que fica em sua busca incesável pelo impensável, pelo incansável sentimento de grandeza e pela procura de um significado.
Aí, o que eu queria de volta. O fluxo de palavras não medidas, a força da mente solta, a vontade das mãos e da escuridão que aqui reside.
Essa vontade de explodir todos eles, de amarrar todas elas e de abraçar o sorriso.
Aquele sorriso.
E todos os livros, e todos os sussurros, e todas as trilhas.
Extremamente espalhado, intensamente confuso. E o jogo de palavras confunde, e o toque alucina.
Volta o alvo, a cândida lembrança de um, de todos. A alva lembrança de mim.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

Quando Thief é agredido pela ruiva da bicicleta.

Virei a esquina, e após isso tudo pareceu surreal. Lá, ao invés de encontrar uma menina linda e pequeninha, encontrei um cão que parecia feroz de mais pra estar em um local tão tranquilo como aquela praia. Eu fiquei parado, encarando ele, enquanto ele rosnava de volta. Até que ele latiu e eu começei a correr. Todos que viam o cachorro davam gritos e se afastavam, deixando o centro da calçada para que eu pudesse fugir. Eu olhava pra trás e aquela fera continuava lá, a minha impressão era que nem se alguem se jogasse em cima dele, ou nem se dessem um pedaço de carne crua ele pararia de me perseguir.
O que aconteceu em seguida foi o que definiu todo aquele dia. Eu roubei uma bicicleta. Claro que logo eu ia cansar e aquele animal ia me fazer em pedaços, ele era grande, branco, e seus olhos pareciam totalmente negros. Definitivamente era algo que eu devia ter detectado antes. E aquela mulher estava dando bobeira com a bicicleta, seus cabelos vermelho (assim como a bicicleta), logo me chamaram a atenção. Então eu simplesmente gritei para ela se afastar.
- SAI! Em 30 minutos eu devolvo!
Nem a ouvi responder, só ouvi os gritos, certamente por causa do cachorro. Após algumas quadras e muita velocidade o despistei. Dei algumas voltas, fui até a praia e desci até o píer de novo, dei uma olhada no cpéu agora, sem sol, com uma cor meio roxa e lembrei que precisava devolver a bicicleta, a moça devia estar puta comigo.
Cheguei no local onde havia "roubado" o meu transporte de fuga (na frente de um mini-mercado) e não avistei a mulher, olhei para o outro lado da rua e me assustei. Lá estava a menininha loira, fazendo carinho no cachorro que agora parecia uma criatura dócil. Ela olhava pra mim, não era impressão minha. Então a pequena acenou e sorriu. Mas havia um pouco de cinismo naquele sorriso. O que era aquela coisa? E eu não estava me referindo ao cachorro.
- HEY!
Virei-me em direção a voz e senti apenas algo duro e frio bater em meu nariz, uma dor horrivel se espalhou pelo meu rosto e eu senti o sangue brotar. Nariz quebrado? Definitivamente. De tão forte que foi a pancada, tive que me apoiar em um poste de luz.
- AI, CARALHO, QUE MERDA É ESSA?
Com a mão no nariz, olhei pra mulher de quem eu havia roubado a bicicleta, lembra quando eu falei que ela provavelmente tava puta? É, ela tava. E muito. E acho que tava mais puta ainda porque agora a mão dela tava doendo.
- Desculpa moça, foi só por uns 40 minutos!
- Desculpa nada, seu idiota! Você fez eu me atrasar, agora vou perder o ônibus! E caramba, que crânio duro!
Olhei pra bicicleta dela e depois pra ela. Estava confuso.
- Pra que ônibus, se você tem uma bicicleta?
- Porque eu ia pra casa e depois ia pegar o...
Ela parou, fechou a cara e se virou para pegar a bicicleta.
- Eu não preciso ficar me justificando pra um idiota que foge de um pincher na rua e precisa de uma bicicleta pra isso.
- Pincher? A raça?
Olhei sem entender. Não, não era um pincher.
- É, a raça. De que mundo você vem?
Se aquilo era um pincher, não desse.
Não respondi, ela só revirou os olhos e montou na bicicleta.
- Hey, espere... qual o seu nome?
- Que?
- Seu nome.
Ela me olhou desconfiada.
- Ivy.
- Eu sou o Thief. Como posso recompensar a perda do seu ônibus?
Ela sorriu. entrou no mercado e logo voltou com uma dúzia de sacolas.
- Me ajude a levar isso pra casa.
Ela praticamente atirou as sacolas pra mim, as segurei com um pouco de dificuldade, e com uma vontade de rir. Meu nariz doía, minhas mãos e minha camisa estavam cheias de sangue, mas aquilo não pareceu sensibilizá-la.
- Cuidado, tem ovos aí.
Entao ela pagou a sacola dos ovos e mais uma, montou na bicicleta e a segui. Enquanto a seguia, olhei para o outro lado da rua e vi novamente a menininha. Ela agora dava risada, parecia que ria da minha situação. Franzi o cenho e ela moveu os lábios dizendo 'Até mais Thief'. Aquilo me gelou dos pés à cabeça. Precisava descobrir o que ela era. E algo me dizia que tinha a ver com a moça que andava à minha frente, Ivy.

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Difícil

É difícil acordar, e estranho respirar. Amar dói, e ser julgado por quem se ama é pior ainda. Acordar e respirar, numa situação dessas, se tornam coisas insuportáveis. Não se pode mudar quem se é, você não pode se forçar a ser, mesmo que virem as costas pra você.
Não te entendem? Lamento, mas você não pode esperar de mais das pessoas. O ruim, é que mesmo assim elas esperarão mais e mais de você. Parece injusto? Bom, e é. Parece de mais? Talvez seja...
Olhar dói, o cérebro encolhe, as mãos tremem e as pernas não são mais firmes. Cada passo é a possibilidade de cair, mas não se pode segurar os corrimãos, não se pode mostrar. É feio vacilar, é feio bambear, é fraco se mostrar. E acima de tudo, machuca. Machuca se manter forte, machuca fingir, nos destrói esconder. Apesar de ser necessário enquanto estamos acordados.
É difícil o coração bater em dias assim.

domingo, 20 de junho de 2010

(...)





E tudo que sinto já foi sentido por outro, e tudo que penso já passou pela mente de outro, e tudo o que falo já saiu da bouca de outro. Eu já existi, antes mesmo de ter consciência do que sou. Você já me tocou antes mesmo de se aproximar. Tudo isso é uma repetição do passado, nada é novo, é uma sequência pré-ditada de nossas vidas, que parecem tão diferentes, mas não passam de uma eterna dança, sempre os mesmos passos, só com dançarinos diferentes

quinta-feira, 17 de junho de 2010

Só.




Eu acho que não poderia me sentir mais incomodada e confusa. Porque o distante é sempre mais atraente? Porque o sorriso perde a graça? Por que tudo perde a cor com tanta facilidade em certos dias?
Eu penso errado, eu faço errado, eu vejo errado. Sempre, tudo errado.
Meu problema é meu reflexo. Meu problema são os olhos. Meu problema é a mente.
Eu não tenho espaço pra mais ninguém, é só eu e ela. Você não se encaixa aqui. Jamais alguém poderá se aproximar tanto.
E eu não amo se não sou amada, e eu não desprezo sem ser desprezada, e eu não odeio sem ser odiada.
Nem tudo que reluz é ouro, nem todo mundo que consente concorda, nem todos que dão risada acham engraçado.

segunda-feira, 7 de junho de 2010

Thief encontra o pequeno anjo.

Eu estava sentado no chão do píer, com as pernas balançando enquanto olhava o sol se por. Era a única coisa da qual eu não podia largar mão: assistir o pôr-do-sol. O cheiro do mar invadia minhas narinas e a brisa vinda do mar parecia um chamado, eu queria pular. Levantei, estava pronto para ir. Mas...
- Hey!
Parei, não olhei para trás.
- Oi você?
Suspirei e virei na direção de quem falava comigo. Era uma menina, de 12 ou 13 anos. Ela era quase 30 cm mais baixa que eu, tinha cachos loiros e estava com um vestido vermelho, de pés descalços. Era uma imagem que não fazia sentido naquele lugar.
- Sim?...
Ela sorriu, e sem falar nada saiu caminhando na direção oposta a mim. Foi estranho, pois ela parecia inocente de mais para parecer provocante, mas me chamava tanto quanto a brisa havia chamado, ela tinha um rosto de anjo, e eu não fazia idéia do que estava fazendo.
Mas a segui, eu tinha o pressentimento de que se não fizesse isso, estaria perdendo... algo. Aquele anjo se misturava com a multidão, me fazendo empurrar as pessoas, ela passava com facilidade, parecia que abriam caminho para ela. Quando saímos do tumulto, a garota começou a correr, e em um desespero repentino, corri atrás. Não podia perdê-la de vista, precisava alcançá-la. Então ela virou em uma esquina, e quando eu eu estava prestes dobrar, algo aconteceu.
Em questão de alguns segundos o curso da vida de duas pessoas mudou. Tudo por culpa de uma bicicleta e de um cachorro. Essa história é minha, de Ivy, e do nosso pequeno cupido e anjo da guarda.

segunda-feira, 31 de maio de 2010




Na maior parte do tempo, me esqueço de respirar. Me esqueço de ouvir. Me esqueço de falar.
A maioria das pessoas me abraça forte de mais. Algumas abraçam meio fraco. Outras nem sequer tocam em mim.
Em geral, quando choro, não entendo o porquê. Algumas vezes é por você. Nunca é por outra pessoa.
Se eu partisse seria melhor? Se eu ficasse seria mais fácil? Se eu fingisse ia doer muito?
Não enxergo mais. Tudo o que eu sabia se foi. Tudo o que dizem são só palavras. Onde te provo, o quanto sinto? Sinto muito. E sinto aqui.
Não me acho merecedora da tua palavra, não me acho digna do teu consolo. Recorro aos piores lugares, aos piores vícios, aos demônios mais assusstadores.
Não preciso mais de uma, preciso da outra. Não quero mais de um, quero só um.
Meus olhos encontram os teus, minhas mãos as tuas. Meu choro me entrega, meu coração se rende à ti e a ninguém mais. E o que se sabe agora, ainda é nada.
E me resta a minha insegurança e o meu querer estar contigo. Me resta a minha doença e a minha insatisfação, e ambas somem com você por perto.
Teu sorriso manda tudo embora, e então me sinto bem.
E tenho medo. Ele também.
Não tenho controle agora, mas ele deveria ter.
Ela me controla. Ela me mata.
Eu não sei. Eu te amo. E fico.
E então todos os pensamentos colidem, e nada faz sentido. E é tudo invenção, e é quase tudo mentira, enquanto todos decidem ficar longe.
Ninguém entende, e eu me viro sozinha de novo.
E quem disse que não mereci?

segunda-feira, 29 de março de 2010

Casa.




Acho que essa doença nunca vai ir embora. Eu quero que ela vá, mas se eu não mudar, ela simplesmente não se move.
Eu to num barco (e eu odeio barcos), do qual eu quero muito pular, mas me falta coragem. Eu to aqui, falando pra vocês, falando pra mim mesma, minhas idéias e meus quereres, mas o que eu to fazendo? O que eu e você estamos fazendo? A gente pode conversar a noite inteira, mas isso não muda o fato de que ALGO ESTÁ ERRADO, e não vai mudar sem a sua ação, sem a minha ação. Como podemos? Onde podemos? Acho que essas perguntas são fáceis, a mais difícil de todas, é quando começaremos?
Eles estão esperando, o mundo está esperando! O que? Que nós deixemos essa covardia de lado e façamos o necessário para ao menos tentar encontrar a liberdade. Se não der de um modo, tem que dar de outro! Se você está triste, se obrigue a sorrir, fique perto de quem deperta o seu melhor lado.
Todos estão esperando por nós! Precisamos agir! O que me diz? Vai se conformar com o que todos te dizem e permanecer com essa pose de mal compreendido pela sociedade, pelos seus amigos e pelos seus pais? Faça você seu próprio caminho e suas próprias decisões.
Aí fora tem amor, tem ódio, tem ressentimento, tem sofrimento, tem alegria, tem gritos de fúria, gritos de prazer, risadas falsas, gargalhadas involuntárias, coisas que vão te deixar revoltado, pessoas que vão te falar absurdos que você nunca imaginou, acontecimentos que você não vai poder controlar, dores que vão parecer fortes de mais pra sentir, amores que vão te deixar nas nuvens, empregos que vão acabar com você, um mundo que vai nos impressionar, desejos que vão nos confundir.
Você vai ficar aí lendo o que poderia ser sua vida, imaginando situações que aconteceram ou aconteceriam, ou vai fazer alguma coisa que realmente vá valer a pena?
Sai daí, vamos, vamos pra nossa casa: o mundo.
Acho que esse é o único modo que vai fazer esse sentimento ir embora. Se eu estiver errada, não me culpe, ao menos tentamos, certo?


mazzyxx

quinta-feira, 25 de março de 2010

Isto.



Isto vai me manter seguindo. Três dias, é tudo o que eu preciso. Depois transformo o três em quatro, o quatro em cinco, e todos os dias em absolutamente nada. Isto se chama amor.

domingo, 21 de março de 2010

O que eu sentia e não entendia.



(...) Eu tinha o pensamento de que quando eu amasse de verdade, eu saberia pois a pessoa despertaria em mim o desejo de ficar. Então, depois de me apaixonar algumas vezes eu percebi que estava errada, o que eu pensava que era amor, nunca me fez querer ficar.
Quando eu amar, e for verdadeiro, esse alguém vai acordar em mim aquela sensação de que o mundo vai acabar amanhã e que precisamos correr rápido para o mais longe possível, vai ser o 'alguém' que vai segurar a minha mão e me levar pra todo lugar, aquele que vai ouvir 'vamos' sair da minha boca e vai estar de pé em um pulo. Por que? Porque se esse ser humano existir, ele vai me conhecer como nenhum outro, e vai saber que eu tenho esse impulso de sempre conhecer mais, de querer mais, e vai estar disposto a me acompanhar onde quer que eu vá, e não só por me amar, mas também por sentir o que eu sinto e por eu conhecê-lo exatamente do mesmo modo. (...)

quarta-feira, 17 de março de 2010

Egoísmo?

Sinto falta de escrever. Acho fiquei sem jeito, em todos os sentidos. É horrivel pra mim assim como pra você. Isso tá muito difícil de entender, e seria mais difícil ainda de fazer.
Começei no mínimo 15 coisas nos últimos meses. Conclui no máximo 3.
To deixando a razão me guiar, to botando em primeiro lugar tudo do que preciso.
Mas essa doença cai sobre mim como água gelada, me quebra por dentro com uma pancada. Não faz muito sentido.
De tempos em tempos, nos sentimos assim... Mas precisamos da recuperação, certo? Caso contrário, acabaremos loucos!
É difícil ter alguém por perto quando seu estado mental está definido imutávelmente como 'louco'. Tanto para você, quanto para qualquer outro ser humano. Sua eterna companheira seria apenas a sua psique, amaldiçoada ou não.
Parece que a única saída é para trás. Não me vejo progredindo em direção à bons fins. Não me vejo progredindo de modo algum.
Mas talvez seja diferente. Agora, pode ser que dê certo, pois não desisti e nem pretendo. Posso estar acorrentada, sem saída, sem visão e sem paciência, ainda assim pode ser diferente, pelo fato de que cansei de desistir. Cansei de não concluir, cansei de deixar as coisas e as pessoas me derrubarem.
A decisão de ser, ou não, é minha. Posso pensar que vou falhar, mas o que quero mesmo é chegar lá, naquele lugar que eu acho que vai me fazer feliz.
Acho que depois que eu chegar lá, decidirei o que fazer. Por enquanto, preciso manter o foco.
E com tudo isso, eu nada disse. Prendi a sua atenção para satisfazer o meu desejo de mostrar o que sinto.
Egoísmo?

sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Quem ganha?

Eu não sou uma pessoa de rostos. Eu aprecio detalhes, coisas vistas bem de perto. Como uma ruga de expressão, ou uma veia mais marcada sob a pele. Eu acho bonito o jeito como a pele se sobrepõe aos ossos, e as mascaras aos rostos.
E por trás dos pequenos gestos e dos míseros detalhes, que vi algo grande chegando. Eu estava triste. Na verdade, sou triste, mas fiquei realmente triste quando soube que alguém próximo a mim era INFELIZ. E então uma onda de descargas emocionais foi liberada pelo meu corpo inteiro, e eu simplesmente cheguei a uma conclusão definitiva sobre tudo aquilo, aquelas pessoas que tinham duas caras, que falavam com uma voz quando estavam perto, mas com outra ao longe. A conclusão foi que eu ganharia. De qualquer modo, Eu ganho.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Invasores.

Acordei com um estardalhaço enorme vindo da cozinha. Minha cabeça estava doendo muito, e aquele barulho não havia ajudado em nada. Saí debaixo das cobertas e senti um calafrio.
Oops, mal sinal. Será que era um assassino que gostaria de encurtar ainda mais a minha vida? Ou um ladrão idiota que tentou não fazer barulho sem sucesso? Muito improvável, quem quer que fosse, queria que eu soubesse que estava lá. Eu torcia para que fosse um sonho, ou efeito colateral de algum remédio, eu não estava em condições para lutar pela minha vida no momento.
Respirei fundo e saí da cama, mas ao fazer isso bati o dedinho do pé no criado mudo, e reprimi um gemido de dor. Ótima hora pra ser desastrada. OK, deixei o dedinho pra lá e com cuidado segui em direção à sala que era iluminada por um grande letreiro do super mercado que havia em frente ao prédio. Menos mal, pelo menos na sala eu conseguia ver por onde andava. A atravessei, e ao chegar à porta da cozinha fiquei paralisada e arregalei os olhos.
Infelizmente a luz do letreiro não chegava a invadir a cozinha. A única coisa que invadia a minha cozinha naquele momento, eram duas figuras altas e desconhecidas.
Engoli em seco. Sim, eu estava com medo e MUITO puta. Conseguia ver os estilhaços da janela, iluminados pela luz da lua que passava pela janela quebrada, mas eu ainda assim não conseguia identificar os invasores.
Uma das figuras se aproximou e estendeu a mão.
- Elle? Não precisa ter medo. Eu e o Wayne não vamos te fazer nenhum mal.
Espera aí, Wayne?
- Viemos aqui para conversar. Elle... este é Thomas Hallowd, um companheiro de longa data.
- É um prazer conhecê-la, senhorita. E pode me chamar de Thomas.
Só podia ser uma alucinação, sabia que não devia ter tomado tantos remédios. Só podia ser um sonho MUITO louco.
Ou não.
Minha respiração começou a falhar, tentei me apoiar na parede. Eles queriam conversar. O que diabos dois vampiros queriam conversar comigo?
- Ok. Eu... vou me trocar... e...
Comecei a correr em direção ao meu quarto. Não faço IDÉIA do porque, já que a porta ficava na COZINHA.
Cheguei na porta do quarto e parei de novo. Aquilo não podia ser real.
Wayne estava parado, com uma expressão serena, olhando pela janela, enquanto o seu amigo, Thomas 'algo que eu não entendi' mexia em minhas coisas.
- HEY! - Protestei, mas nenhum deles deu bola.
- Rice, Laurell, Nobre... belíssima escolha. Então, o que acha de nós, os imortais? - Perguntou o desconhecido com os livros que eu havia adquirido recentemente em mãos.
Ok, eu estava tremendo. Era um ataque de nervos, definitivamente. Dificuldade para respirar, suando frio. Nada, nada, nada bom.
- O que é isso? Qual o motivo disso tudo? - Perguntei com a voz trêmula.
Eu olhava de Wayne pra Thomas, e de Thomas pra Wayne. E foi ele quem respondeu.
- Elle, acalme-se - ele começou a vir em minha direção, colocou uma mão em meu ombro e com a outra gesticulou em direção a minha cama. - Sente-se aqui.
Seu toque me acalmou um pouco, ao mesmo tempo que me deixou alarmada. Aquilo era BEM real, e não me restava nada a não ser fazer o que eles pediam. E sim, eu queria me sentar.
Sentei e encarei o chão, Wayne estava perto de mim enquanto Thomas folheava 'Irmãs de Sangue'.
- Quais destes você já leu? - Ergui o rosto para olhá-lo e ele sorriu para mim.
- Hallowd, cale-se.
- Wayne, ao invés de me criticar você poderia falar o que está pensando, não é? E sim, sua ideia é boa.
Wayne revirou os olhos.
- Elle, tem calmantes em casa?
Assenti com a cabeça. Eles iam me dopar? Iam me matar depois disso? Poxa, eu já tinha um prazo de validade curto, eles não podiam ser bonzinhos comigo? De qualquer modo, indiquei o armário dos remédios dentro do banheiro.
- Frasco laranja grande. Ele tá bem na frente, eu acho.
Quando olhei ao redor, percebi que Thomas não estava mais lá.
Wayne voltava do banheiro com o frasco na mão, e quando olhei pra frente Thomas havia se materializado com um copo de água na mão. Uau, bem que eu gostaria de um desses 24h por dia.
Wayne botou uma capsula na mão e a estendeu para mim. Fiquei olhando para a mão dele e mordi meu lábio inferior.
- Dois? - Me perguntou arqueando as sobrancelhas. Dei de ombros e ri nervosa. Ele estendeu as duas cápsulas e Thomas me alcançou o copo. Pronto, agora era só esperar...
E enquanto esperava, olhei para minha escrivaninha e para a prateleira de livros e senti um arrepio.
- Quando que ...?
Estava tudo inacreditavelmente organizado, como nunca havia estado antes. Acho que nem Valerie conseguiria organizar minhas coisas daquele modo. Thomas apenas sorria, como se estivesse achando graça. Eu só estava achando macabro.
Quando me virei para Wayne, tive uma sensação muito estranha, ele olhava pra mim de um modo que me deixava confusa, sem saber se eu continuava olhando ou se desviava o olhar. Mas eu queria continuar olhando... Afastei esses pensamentos e percebi como isso era estranho.
- Wayne? Pare de me olhar assim! É... é... estranho - Botei minha mão nos olhos dele. Percebi que eu tinha sido grossa com ele, então, olhei pra ele, enquanto Thomas ria. - E você! Thomas, não?
- Sim. - Respondeu com um sorriso. Aquilo estava me dando nos nervos, ele simplesmente não conseguia parar!
- O que é sempre tão engraçado pra você? Eu não vejo merda de graça nenhuma!
- O que é tão engraçado é ver que você ganhou um mascote, garota.
Franzi a testa e olhei para Wayne.
- Hallowd, porque você não se cala e some da minha frente?
- Wayne, perto dela você parece estar doente.
Doente. Desviei o olhar de Wayne e me senti um pouco mal. Desde que os vi, esqueci completamente da MINHA doença. Pareciam dois mundos diferentes, que não coexistiam. Leucemia e vampiros?
Ergui o rosto e Thomas me olhava sério, fiquei meio espantada com a capacidade que ele tinha de mudar, de uma expressão zombeteira, para tamanha seriedade.
Não pense nisso.
Ouvi a voz de Thomas claramente, mas os lábios dele não se mexeram. Ele estava... dentro da minha mente.
Agora ele falava com Wayne.
- Acho que é hora de deixá-los a sós. Devem ter assuntos interessantes para conversar, não é, Elle? - Olhos em mim novamente e deu aquele sorriso que me dava vontade de socar a cara dele. Virou de costas em direção à saída, mas parou na porta.
- Te espero no carro.
Então eu estava sozinha com Wayne em meu quarto

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Convidados.

- Então, vamos? - perguntou Thomas, já de pé em frente a seu assento. - Wayne? A peça já terminou.
- Ah... sim. Vamos. - respondi, me levantado da confortável poltrona estofada.
Eu ainda estava zonzo e perdido em pensamentos. Será que este maldito estado de confusão iria demorar tanto para passar? E o pior de tudo é que eu ainda estava indeciso. Durante toda a peça pensei em Elle, em visitá-la para... conversarmos. Eu queria somente conversar com ela, me aproximar, me tornar uma espécie de... amigo. Eu sentia que ela precisava de mim tanto quanto eu precisava dela, mas, havia algo errado.
- Wayne, vamos para o carro. - disse Thomas, guiando-me para fora da casa de teatro. - Vamos passear pela cidade.
- Passear? Por acaso eu sou um cachorro com o qual se é preciso passear? - respondi.
- Wayne... somente entre no carro. Eu dirijo. - respondeu, com uma expressão azeda no rosto.
- Hallowd, cale a boca e sente na droga do banco do passageiro. - falei, enquanto me dirigia mais rapidamente para a porta do motorista.
Aparentemente ele havia gostado da súbita normalizada que eu havia tido em meu tom de voz e meu vocabulário, e creio ter visto Hallowd sorrir com o canto de sua boca. Abri a porta do motorista e sentei-me no banco, levando a chave até a ignição e ligando o carro.
- Ah, finalmente em algum lugar onde humanos não podem perceber nossos movimentos diferentes. - disse Hallowd. - Sinceramente, Wayne, eu gostaria de poder caminhar com a velocidade que costumo andar, mas, os humanos perceberiam.
- E eu gostaria de ter asas, agora cale-se, Hallowd.
- Wayne, a melhora em seu temperamento foi boa, mas não exagere. - disse ele, inexpressivo.
Seria melhor pensar ao invés de falar, pois Hallowd poderia ouvir meus pensamentos, então, eu não dava a mínima para o jeito com o qual eu me movia. Eu não conseguia ver beleza nisso, mas sim, praticidade. E isso não importava, afinal, eu estava em um momento decisivo. Eu iria até o apartamento dela? E, será que Hallowd não iria se opor? E o que eu diria a ela? Que eu a amava e queria que ela vivesse comigo?
Bobagem.
- Vamos, eu estou mesmo curioso para saber quem é essa tal Elle. Não que eu não a tenha visto em sua mente, mas, ao vivo é outra coisa, você sabe. - disse Hallowd, seu sotaque inglês totalmente ausente em sua fala. Ele mais parecia um vampiro americano.
Saí da casa de teatro e me dirigi para o bairro onde Elle morava. Não me lembrava exatamente do nome, e eu nunca fora tão bom com nomes, mas sabia lembrar muito bem das imagens. Acho que hoje em dia chamariam isso de memória fotográfica, mas, não faz real diferença. O ponto é que eu dirigia em alta velocidade pela cidade, buscando encontrar rapidamente o apartamento.
E consegui. Encontrei o apartamento com maior facilidade do que o esperado, e estacionei o carro bem em frente ao local. Ainda dentro do carro, desligado, olhei para Hallowd, e ele me encarou por algum tempo. Pensei tê-lo ouvido dizer um irônico "preparado?", mas acho que foi somente minha imaginação. Descemos do carro e Hallowd perguntou:
- Prefere entrar pela porta ou algo mais furtivo?
- Vamos entrar furtivamente. - respondi.
- Sabe qual é o apartamento? - perguntou.
- Sei, agora, me siga. - falei, enquanto corria e saltava a enorme grade que prevenia a entrada de pessoas não autorizadas, como nós.
Essa parte eu achava interessante. Pular e usufruir da gravidade era magnífico. Magnífico e simples, assim como correr ou manter o passo similar ao dos humanos. A parte seguinte era um pouco mais trabalhosa, mas nem por isso deixava de ser interessante, pois escalar uma parede enorme era algo... divertido. Hallowd tinha até mais facilidade que eu, mas isso também não importava.
Quando enfim chegamos na janela de sua cozinha arrebentei as armações de ferro e o vidro, causando um grande barulho dentro do apartamento. Por ali Hallowd e eu entramos no apartamento, e caminhamos calmamente para a sala de estar, enquanto Hallowd me criticava pela nossa "entrada triunfal".
- Se queria quebrar algo, poderíamos ter matado o porteiro. Além do mais, estamos sedentos. Deveríamos ter feito isso mesmo... - disse ele, enquanto eu tentava pensar em um meio de chamar Elle sem assustá-la.
Mas, o barulho do vidro não teria sido suficiente para chamar sua atenção? Provavelmente ela estava dormindo, e logo iria se levantar para ver o que havia acontecido. Então iria encontrar dois imortais bem vestidos em sua sala, esperando por ela, e provavelmente desmaiaria. Mas, eu queria que ela não desmaiasse, que pudéssemos conversar, e assim, nos tornarmos... amigos.
Era algo tremendamente infantil pensar em ser amigo da garota pela qual eu estava apaixonado, mas, eu queria algum tipo de aproximação amigável. Eu não queria que ela me visse como o "vampiro sanguinário que quer me transformar", e sim como uma espécie de conselheiro. Eu queria saber sobre o seu dia, queria notícias dela, queria fazer parte da vida dela.
- Wayne, sua amiga estará aqui em poucos segundos. - disse Hallowd, e suas palavras soaram como uma previsão, pois dali a alguns segundos Elle apareceu no corredor com cara de sono e um pouco assustada.
Ela nos olhou com medo, mas não disse nada. Eu pensei em algo para dizer, mas minha voz não saía. Hallowd deu um passo à frente e estendeu a mão para ela, que estava a uns 4m à sua frente. Ela não recuou, mas também não veio ao seu encontro. Então, por um instante pude perceber que ela estava vendo não a mim e Thomas na sala escura, mas sim duas figuras escuras.
- Elle? - disse Hallowd. - Não precisa ter medo. Eu e o Wayne não vamos te fazer nenhum mal.
- Viemos aqui para conversar. - falei, minha voz estava trêmula. - Elle... este é Thomas Hallowd, um companheiro de longa data.
- É um prazer conhecê-la, senhorita. E pode me chamar de Thomas. - disse ele, gesticulando com as mãos num gesto de cordialidade, algo muito usado na época que foi transformado.
Mas Elle não respondeu. Ela com certeza estava prestes a desmaiar, mas eu pedia fervorosamente em minha mente para isso não acontecer. Era um momento crucial, e nada podia sair errado. Mas, a grande verdade era que eu pensava que isso tudo fosse um plano, enquanto me deixei levar por meus impulsos. Ótimo, tenho o momento que eu queria, e não sei o que dizer.
Vamos Elle... diga algo...


Por Nathan Ritzel Dos Santos

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Convite.

Ok, eu definitivamente não tinha habilidades na cozinha.
Val estava me ajudando a fazer um prato francês, muito chique, que eu não fazia IDÉIA de como se comia. Parecia algo bonito de mais pra se mastigar.
- Val pode me ajudar aqui?
- Problemas com a marinada agora, Elle?
- Com a mari o que?!
Olhava para minha irmã com uma cara desesperada. Ela riu, terminou de dourar as sobre coxas de frango.
- É só por na panela Elle, eu fiz a marinada ontem.
- Ok desculpa, mas eu não sei cozinhar, nunca precisei saber muita coisa. O Jet sabe. E meus limites são panquecas e arroz.
- Ok, eu termino, dá isso aqui. Você me alcança os ingredientes.
Fora três queimaduras no braço, me saí bem cozinhando Coq au vin pela primeira vez. Nunca tinha cozinhado algo assim antes. Queria aprender, antes de... Bom, não poder mais cozinhar.
Jet que estava na sala, ao sentir o cheiro da comida correu para a cozinha.
- O que teremos hoje?
- Coq au vin! - Respondeu Val, com um francês impecável. Jet fez uma cara de quem não entende nada, e eu só dei de ombros e virei para pegar os talheres. Os Quatro pratos já estavam na mesa, e Kent, meu colega na faculdade, veio da sala para se juntar à nós.
A única pessoa que conseguia comer normalmente era Val, nós três (Eu, Jet e Kent) nos encarávamos, espetávamos o garfo na mini galinha e logo desistíamos.
- Qual o problema? Vocês nem tocaram na comida!
- Eu não sei comer isso Val, desculpa. - Kent se acusou e ergueu os braços. Encarei a galinha no meu prato, respirei fundo e a peguei com as mãos, comendo ela feito um animal. Os homens da mesa riram e me imitaram. Val me olhou perplexa com tamanha 'falta de civilização', mas não deram 10 segundos e começou a nos imitar.
- Elle, você já fez o trabalho do professor Hidley? Sei que é só pro mês que vem, mas tem que se adiantar, não?
Olhei para Kent sem expressão alguma em meu rosto, Jet e Val pararam de comer. Eu já havia contado para eles sobre a notícia que o médico havia me dado. Eles estavam tentando fingir que nada havia mudado, mas naquele instante eles vacilaram, deixando Kent constrangido. Ele não sabia da doença.
- Vou sim Kent, Tá quase pronto. Sobre o que vai ser sua história?
- Acho que vou fazer algo parecido com Fup, a fábula da pata, sabe?
- Uhum, interessante.
- E você?
- Vampiros. - Falei encarando meu prato. O silêncio foi tanto que tive que erguer meus olhos. Os três me olhavam com uma expressão estranha.
Depois disso, tentei não falar muito. O jantar seguiu normalmente, até Kent ir embora e Jet vir falar comigo enquanto Val tirava a mesa.
- Elle, podemos conversar?
- Claro. - Cruzei os braços.
- A Val me disse que você continua falando durante o sono. Sobre Jaime e... bem, vampiros?
Engoli em seco.
- Você acha que um vampiro atacou o Jaime, Elle?
Jet estava tentando segurar o riso, e aquilo me irritou muito. Ele estava sendo um idiota. Queria ver o que ele diria, apenas afirmei com a cabeça.
- Elle, foi algum animal que atacou o Jaime, e com todos esses remédios você deve estar confundindo sonhos e realidade. Você tem lido muito Crepúsculo.
- Eu não li Crepúsculo, se eu quisesse ler sobre vampiros eu leria Anne Rice.
Ele se assustou com a rispidez que transparecia na minha voz.
- Ok, o que eu realmente queria dizer era que você não precisa fazer trabalho para a faculdade.
- Que?
- Pra que se estressar em uma hora dessas, Elle? Com trabalhos e provas? Porque você não abandona a faculdade e vamos fazer uma viagem? Sua mãe ia gostar disso.
- Minha mãe ia amar qualquer plano que me levasse pra longe dela, Jet.
- Não fale assim da sua mãe... - Ele falou baixo, o ignorei e continuei.
- E você tem o que na cabeça? Viajarmos juntos? Não se sabe quanto tempo eu ainda vou viver! A cada dia que passa eu me sinto pior.
- Hey Elle, porque tá gritando? - Val entrou na sala com cara de preocupada.
- Você apóia essa idéia de viagem Valerie?
Silêncio.
- Sim, ela apóia, e até queria vir junto.
Fechei os olhos e trinquei meus dentes, eu estava furiosa. Eles não conseguiam enxergar o que estavam sugerindo.
- Sua mãe já foi na faculdade e...
Isso foi a gota d'água.
- Desde quando você tem mantido contato com a minha mãe sem que eu soubesse Jet?
- ...
- Ok, não precisa responder. Mas querem saber de uma coisa? Eu não vou abandonar porra de faculdade nenhuma, não vou viajar com ninguém, não pra vocês acordarem algum dia e verem que meu corpo está frio e sem vida. Eu NÃO quero isso, e eu vou concluir meus trabalhos até onde eu conseguir, e agora eu vou pra MINHA casa, e não quero NINGUÉM me ligando ou me seguindo. Vocês já me aborreceram o suficiente pra um dia. Vocês queriam me poupar, mas adivinhem só, não adiantou NADA!
Peguei minha bolsa, praticamente marchei em direção à porta e fui a pé para casa, uma caminhada de 15 minutos só com meus pensamentos seria tortura, eles haviam tramado tudo pelas minhas costas, Jet sugeria contando com o fato de que eu iria aceitar esse convite ridículo, e como Valerie podia concordar com isso? Respirei fundo e ascendi um cigarro.
Cheguei ao prédio me sentindo mais calma, subi às escadas e parei em frente à minha porta. Estava me sentindo terrivelmente fraca, entrei e peguei meus remédios, os engoli a seco e caí na cama.

Companhia.

Um inimigo natural da nossa raça é o sol. O sol pode destruir um vampiro completamente, queimando sua pele e transformando-o em cinzas. Até mesmo os raios de sol filtrados por uma cortina escura podem nos afligir, e por isso preferimos, quando acordamos ao dia, permanecer em cômodos escuros e esperar o sol se pôr, para que nossa caçada seja iniciada.
Hoje é um destes dias. Aquela maldita garota estava em meus sonhos novamente! Ela perambulava por minha morada trajando roupas molhadas e sujas, pois chovia naquela noite, e chorava. Resmungava ladainhas sem sentido e suplicava para que eu a transformasse em uma imortal. E foi na sala de estar que eu fui tomado pela raiva e acabei ferindo a garota, que ainda implorava pela imortalidade.
Mas eu não o fazia, eu não a transformava. Eu apenas olhava para ela, com seus cabelos desgrenhados, e mexia a cabeça negativamente, enquanto ela corria em minha direção, tentando me abraçar, aos prantos. E eu, num acesso de raiva, segurava seus pulsos com minhas mãos e os erguia na altura de seu belo rosto, onde as lágrimas haviam transformado seus delicados olhos nos olhos de uma sofredora que clama pelo seu objetivo.
Não sei por que isso me fez despertar mais cedo, mas, me encheu de ódio. Aquela garota, além de ter conquistado um bom espaço em minha mente, também me fazia levantar durante o dia. Maldita! Durante minha vida imortal eu raramente despertava antes do sol se pôr. Geralmente era nessa mesma hora crepuscular que os imortais despertavam, cada um em sua devida hora, mas todos após o crepúsculo.
Suas palavras não saíam da minha mente. "Wayne, você sabe o que tem que fazer...", dizia ela, "... eu preciso disso, eu preciso...". Seria meu poder mental que estava tentando me revelar algo? Não... provavelmente era mais um desejo reprimido. Ah, que se dane! Preciso para de pensar em coisas como essas.
- Wayne? - disse uma figura masculina, irrompendo da janela.
Me virei para a janela e vi Thomas parado em sua frente, ajeitando e limpando o fino paletó, que, pelos detalhes e pelo bordado, eu julguei ser italiano.
- Hallowd...? - perguntei, surpreso.
- Não me chame pelo meu sobrenome, você sabe que eu odeio isso. - disse ele, ainda passando as mãos sobre a fina camada de poeira sobre o paletó.
- Certo... - foi a única coisa que consegui dizer. Ah, eu parecia um cãozinho obediente. - Hallowd, por que você está parado na minha sala de estar sem ser convidado?
- Thomas. - corrigiu ele. - Quantas vezes terei de insistir?
- Dá pra responder a minha pergunta? - esbravejei.
- Hoje resolvi caçar com você, acabei de acordar e estou sedento. E, claro, eu pretendia ir ao teatro e assistir alguma peça, isso se você me acompanhar. - disse ele, calmamente.
Só então que percebi que na janela pela qual Hallowd entrara que o céu estava enegrecido. Eu havia passado tanto tempo perdido em pensamentos que nem vi o tempo passar.
- Que horas são? - perguntei.
- São... - disse ele, olhando para o relógio em seu pulso esquerdo. -... 20:27.
- Droga!
- O que houve? Tinha algum compromisso importante? - perguntou, com as mãos já livres e com o paletó aparentemente limpo.
- Eu despertei em torno das 17 horas. Droga! Passei três horas pensando naquela maldita garota!
E quando me dei conta estava gritando ofensas para o vazio da minha sala de estar. Thomas havia sumido, mas ele ainda estava na casa, pois eu podia ouvir algumas palavras de seus pensamentos. Mas, havia algo de diferente, pois eu conseguia ouvir com nitidez, mesmo que fossem apenas duas ou três palavras em cada frase, mas, os sussurros e chiados que eu ouvia antes agora eram nítidos. Sons limpos.
- Gostando de ler minha mente? - perguntou Thomas, enquanto subia as escadas que davam para a sala de estar.
- Você... também pode? - perguntei atônito.
- É claro. A leitura de pensamentos é uma habilidade inata dos vampiros. Eu não costumo usá-la, mas, é realmente útil às vezes. - explicou ele.
- Mas... eu pensei que fosse o único... - era algo aterrador ter meu grande dom reduzido a algo comum.
- Não. Você tem um dom único, você pode manipular a mente das pessoas, de fato, mas faz isso de uma forma que nem eu entendo...
Thomas caminhava de um lado ao outro da sala com a mão direita tocando seu queixo. Eu agora estava vendo que era apenas um simples vampiro, um vampiro antigo enfraquecido pelo sangue de um então vampiro jovem. Mas, por mais que o sangue de Hallowd tivesse me enfraquecido e que ele carregasse o sangue de Lillian em suas veias, eu não conseguia ter ódio dele, afinal, ele me fez companhia durante todos estes séculos.
Mas, meu dom divino, minha gloriosa manipulação mental tinha sido reduzida a uma mera habilidade comum. Eu nunca soube que os outros vampiros podiam invadir as mentes de imortais e mortais. E, na verdade, eu sempre acreditei que cada vampiro recebesse o dom das trevas de forma diferente, recebendo uma espécie de poder exclusivo que o tornava único. Mas, até isso foi desmentido... e, pelo visto, Hallowd tinha seu poder mental mais desenvolvido que o meu.
- Wayne? Está me ouvindo? - perguntou Thomas.
- Ah... desculpe, eu estava... - tentei me explicar. -... pensando.
- Wayne, você realmente não está normal. Percebe o que acabou de fazer? - perguntou. - Você se desculpou! Acho que está com sede... venha, vamos ao teatro, o espetáculo começará em meia hora.
- Vamos...
Saímos de minha morada e entramos em meu carro, que estava cuidadosamente estacionado ao lado do carro de Thomas. "Eu dirijo", disse ele, logo que entramos no carro, e eu realmente não estava em condições de dirigir. Minha mente há muito estava confusa, e eu já não conseguia pensar em nada com clareza. Será que eu estava aplicando o meu próprio poder em mim mesmo?
- Wayne. Somente pare de pensar. - disse Thomas, enquanto dirigia. - Você sabe que muitos de nós enlouquecem procurando respostas.
Mas, como vou saber o que eu posso fazer? Preciso conhecer minhas limitações! - falei.
- Então faça testes, mas saia do teórico. - falou, enquanto davas rápidas olhadas para mim e para a estrada, alternadamente. - Você tem perguntas, de fato, mas isso não significa que elas precisem ser respondidas. Podemos viver nos perguntando, mas jamais nos dando o luxo de achar razão para tudo.
- Entendo... mas, e quanto a garota? - já me sentia mais calmo, mas Elle continuava me preocupando.
- Se você a quer tanto quando teus sonhos lhe dizem, então vá conversar com ela.
- Eu já perguntei a ela se ela quer a vida eterna, e pretendo vê-la logo. - falei.
- Bom... então, chegamos no teatro. - disse ele, estacionando o carro no estacionamento ao lado da grande casa de teatro.
Permanecemos quietos naqueles momentos, até que descemos do carro e nos dirigimos para a entrada do teatro. Tudo parecia calmo ali, e eu pude compreender a mente do recepcionista com mais clareza que a de Hallowd. Ele percebeu que eu havia constatado isso e apenas assentiu com o olhar. Então entramos no grande teatro, sentamo-nos em duas poltronas vagas na primeira fila e esperamos o espetáculo começar.
Mas, mesmo tendo os olhos fixos no palco e o corpo relaxado na poltrona, minha mente estava inquieta. Minha mente era palco de uma peça sobre uma garota amada por um imortal enfraquecido que logo encontraria sua algoz, e talvez fosse isso que estivesse me deixando tão paranóico. Lillian iria voltar, e com certeza não se contentaria em machucar somente a mim...
- Wayne, preste atenção na peça, por favor. - disse Thomas, percebendo a agitação em minha mente.
- Ah, a peça... - e tentei limpar minha mente para absorver a peça. Até deu certo, mas, mesmo assim, minha mente permanecia preocupada. E minhas preocupações estavam somente começando...


Por Nathan Ritzel dos Santos

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Dor.

Eram cinco e meia da manhã e eu não conseguia dormir. Esse tipo de situação estava ficando muito comum, provavelmente teria que começar com remédios para dormir também. Já havia feito os exames, e também havia recebido os resultados, sobre os quais não havia comentado com ninguém, apenas continuei meus dias normalmente. O meu médico, Richard, havia me alertado sobre os resultados e estimativas dos exames à três dias, e o tempo estava passando.
- Seis semanas Elle, se formos otimistas... Desculpe, sua doença evoluiu de maneira anormal, não temos o que fazer.
Só de pensar naquela tarde, no consultório, meu estômago embrulhava. Corri para o banheiro e mandei toda a minha janta da noite anterior descarga abaixo. Nada mais estava parando no meu estômago. Já havia perdido 4 quilos e não agüentava mais o Jet me mimando, minha irmã Val, vindo todo dia me visitar no apartamento e nem minha mãe, ligando de 30 em 30 minutos para saber se eu continuava viva. Todos me irritavam por me amarem tanto. Levantei do chão e resolvi ligar para Val, ela merecia já que havia me acordado cedo todos os dias da semana.
- Alô? - A voz sonolenta dela atendeu do outro lado da linha.
- Oi sis, tudo bem?
- Elle, que porra é essa? Que horas são?
- Quase seis horas sis, tá fazendo um... - tentei olhar para fora e vi relâmpagos, e uma tempestade se anunciar - Dia horrível hoje, porque você não vem me fazer companhia aqui em casa?
- Que? Agora?
- Claro, antes que comece essa tormenta que se aproxima, ó, querida irmã! Não irás me abandonar nesse momento, não é? - Falei, com uma dose excessiva de drama.
- Você tá se aproveitando da sua situação pra me tirar do sério... Mas eu vou.
- Te aguardo, vou fazer o café da manhã. - A idéia de comer alguma coisa fez meu estômago revirar.
- Ok ok.
Desliguei o telefone e sentei na cama. Val demoraria cerca de meia hora. Meia hora a menos. Os dias estavam passando, e meu prazo de validade chegando cada vez mais perto. Respirei fundo e me segurei para não chorar. Meu plano era passar o dia com Val, e tentar contar à ela não sobre a doença, mas sobre Wayne. Apesar de toda essa história de leucemia, por vezes eu esquecia completamente disso e ele aparecia em minhas lembranças, simplesmente brotava, como se eu não conseguisse controlar meus pensamentos. O convite que ele me fizera antes, de juntar-me à ele como imortal, agora me parecia sugestivo. Exceto por um pequeno detalhe: Eu ainda era muito humana. Não podia me desapegar de todos assim tão facilmente.
Epa, que besteira eu estava pensando! Me juntar a um vampiro? Haha, até parece. Ainda mais à um vampiro que matou alguém que era como um pai pra mim. Jaime... Seu corpo havia sido encontrado, julgaram ser um caso de ataque de animais.
Absurdo.
DING DONG!
Corri até a porta e dei de cara com o nada. Fiquei encarando o corredor vazio e engoli em seco. Eu estava imaginando coisas, apenas isso. Estava doente e muito alucinada com os remédios que estava tomando, apenas isso. Fechei a porta e tentei me concentrar.
- Ok, panquecas!
Cerca de 20 minutos depois Val tocou a campainha, com cara de quem não havia gostado de ser acordada às 6 da manhã de um sábado e quatro cafés em uma bandeja.
- Espero que você tenha feito algo muito bom, e que tenha também, uma desculpa muito boa pra me acordar.
- Eu... estava sem sono, e com saudades. E também é vingança, quando você estava grávida fazia coisas muito piores comigo.
- Por falar nisso, a Lin foi passar alguns dias com o Tim.
- Ok... - Coloquei as panquecas na mesa, esperando explicações dela.
- Ele... acha melhor... a gente não expor a Lin de mais, sabe? E eu também quero passar um tempo a mais com você e...
- Sis?
- Oi.
- Tem certeza que é isso? Não aconteceu nada?
Silêncio.
- Valerie!
- Eu... Tomei alguns remédios pra dormir, deixei alguns caírem no chão, a Lin deu algum jeito de sair do berço e ela engoliu os comprimidos... Se não fosse o Tim chegar pra buscar ela, eu não sei o que teria acontecido Ellie!
Val estava aos prantos, a abracei e beijei sua testa.
- Val, calma! Ele não vai poder tirar ela de você, nós vamos dar um jeito ok?
- Não sei o que seria de mim sem você sis! Se ele tirar minha filha de mim... Se você...
- Eu sei... Eu...
Limpei minhas lágrimas e as dela.
- Sei que é uma péssima hora Val mas...
Ela me olhou com os olhos vermelhos e eu simplesmente não consegui. Era de mais pra mim. Então simplesmente esqueci tudo o que pretendia contar a ela e dei um sorriso.
- Vamos jogar Guitar Hero? Você acaba comigo nesse jogo!
- Claro! - Ela sorriu.
Mas minha vida não continuaria daquele modo. Eu não sabia como contar à todos, e achava que nem contaria. Nas horas que eu sentia muita dor, eu fingia estar cansada e ia me deitar por um tempo, ou tomava alguns remédios além do que devia.
Val passou o fim de semana inteiro comigo.
E eu só conseguia pensar em Wayne e invocá-lo em meus pensamentos. Eu estava sofrendo e fazendo os outros à minha volta sofrerem comigo, e queria que ele desse um fim à isso. Mas como? Eu só queria que a dor parasse.

Desenho.

Oi.
Sabe, eu estava procurando pelo nosso desenho, lembra dele? Eu passei os últimos meses pensando sobre o que estava errado comigo. Mas eu acabei de perceber, que não é essa a questão.
Eu tenho pensando em você muito ultimamente, mas não do modo que eu costumava pensar. Nós éramos tão bons juntos, não consigo lembrar de momentos ruins na sua presença. Só quando eu estava bem longe.
E isso me levou ao desenho.
Eu estava desesperada ontem à noite, pois não conseguia lembrar do seu rosto. Eu estava deitada na cama, esperando o sono me atacar, e meus pensamentos voaram. E eles voaram diretamente em você. Mas eu não sabia quem você era, não lembrava do rosto e nem do nome. E por um momento eu fiquei desesperada. Eu conseguia lembrar claramente das suas palavras, então começei a caminhar pelo meu quarto. Eu estava frustrada. Mas então, algo me fez lembrar.
Seu rosto veio à minha mente e varreu tudo dela. Eu não conseguia pensar em mais nada, e começei a me perguntar se com o rosto, os sonhos também sumiriam.
Estou grata por não ter te visto por um tempo, me levou à este lugar aqui. Onde me encontro. E tudo está claro.
O pouco de tempo que passamos juntos,não quero esquecer isso. Eu só quero esquecer você, mas nunca o que você me fez sentir.
Você me mudou sem saber. Mas nesse momento, eu decidi que vou esquecer de você. Eu vou queimar o nosso desenho. Eu acordei pensando nisso, porque sonhei com você. Você estava falando sobre os meus olhos. Sobre as cores dele. E sobre as cores dele enquanto estávamos juntos. Foi um sonho lindo, onde você realmente me amava. Estou feliz por ele já estar desaparecendo. Aos poucos. E aqueles antigos sonhos, quando você me disse que me amava, eles permanecem muito fortes.
Você acredita que eu sou capaz de te esquecer? Eu não te odeio, talvez você me odeie. Se eu te esquecer, você me esquecerá?
Se eu nos queimar, você ficará triste? Pois eu simplesmente não me importo mais.
Eu achei que você tinha que saber essas coisas, mesmo que eu não esteja falando essas coisas pra você. Eu sei que você sabe. Em algum lugar, no seu coração, na sua cabeça ou nas suas memórias, você sabia no que eu me tornaria. Você sabia o que nós nos tornaríamos.
Eu só tenho que te agradecer, e te desejar boa sorte, eu gostaria que você me desejasse boa sorte também.
Te amarei para sempre, sem rosto e sem nome, farei uma fogueira com as nossas lembranças.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

O Diário de Jay Valensi - parte I

"Jay estava sentada na ponte, com as pernas balançando ao ar, olhando para o rio abaixo dela. A correnteza parecia forte, a água parecia furiosa, pronta para engoli-la. Não sentia medo daquele rio raivoso, apertava a madeira onde estava sentada com toda sua força e respirava fundo. Tirou os sapatos, tirou a camiseta, a calça e as meias. Jay se levantou e ficou na beira da ponte, segurando-se nos pilares que separavam o local onde os carros e as pessoas podiam ou não passar. Ela estava no lado no qual não se podia passar.
Ela encarava o rio, que parecia desafia-la. Sentiu raiva, ninguém a desafiava daquele modo, ninguém podia menosprezá-la como ela sentia que aquele rio o estava fazendo. Fechou os olhos e largou os pilares. Ficou parada com um equilibrio sobrenatural, apenas tentando manter o coração calmo.
Havia uma carta para cada pessoa importante para ela, cada uma contando o que tal pessoa deveria saber. Cada carta levando à outra carta, e por fim ao vazio da saudade. Então Jay ouviu gritos à distância, gritos desesperados de várias pessoas. Ela apenas sorriu e se jogou.
Com ela, tudo fora embora: o próprio sofrimento, as horas na frente do espelho, os arranhões pelo corpo inteiro, o amor que ela sentia por todos à sua volta, e o ódio que sentia por tudo. Seu ódio sempre havia superado o seu amor.
E aos poucos seus pensamentos ficavam fracos, não havia mais ar. Ela estava se deixando levar.
Enquanto Jay estava presa em sua versão romântica do suicídio na própria mente, sua namorada, Nina, e seu melhor amigo, Cau, encontravam a realidade no chão da sala. Ela com os pulsos cortados, os dois gritavam desesperados enquanto Jay morria em suas mãos.
Mas Nina chamou a ambulância à tempo. Os paramédicos a socorreram e pararam o sangramento.
Nina e Cau foram com Jay até o hospital, e ficaram por horas na sala de espera. Ambos ansiosos, ambos preocupados. Ambos chorando sem parar, com os rostos sérios, mas úmidos. A mãe de Jay demorou para aparecer.
Senhora Vanlensi, como eles a chamavam. E quando esta soube o que acontecera com a filha, apontou diretamente para Nina, e sem hesitar a culpou pelo sofrimento de Jay. Então Nina apenas tirou da bolsa um caderno vermelho e alcançou para a sogra.
- O que é isso?
- É o diário de Jay Valensi senhora. O achei e li, espero que a senhora o leia e tente conhecer e entender melhor a sua filha. E torça para ela não morrer hoje.
E dizendo isso virou as costas para Vivian Valensi, encarando o médico que havia atendido Jay.
O coração dos três que esperavam pelas palavras daquele homem pararam de bater por um momento. Então ele moveu os lábios lentamente e o som saiu.
- Ela está viva.
Três pares de olhos se encheram d'água, e um par de pernas começou a correr frenéticamente pelo corredor do hospital, olhando dentro de cada quarto. E quando viu Jay, Nina parou. Ela dormia como um anjo.
Nina sentou ao lado da cama, e contentou-se apenas com observar sua namorada enquanto esta estava sobre o efeito de sedativos. Atrás dela entravam Cau e Vivian, e os três ficaram naquele quarto de hospital, esperando Jay acordar, ansiosos. Mas não faziam idéia do que fazer quando acontecesse.
Então, apenas esperaram."

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Ameaça

Hallowd me fizera uma visita noite passada. Em geral, eu odiava suas visitas, porque ele sempre questionava alguns fatos de meu passado, afirmando que eu ainda estava vagando pelo mundo por sua causa. Ele me despertara, mas, eu o induzi a isso, pois meu controle mental era mais forte naquele tempo. Seu sangue me enfraqueceu, e ele sabe disso.
Mas, sua visita não fora tão desagradável quanto as outras. Desta vez ele trouxe à tona um fato que poderia ter incitado minha raiva, se eu não estivesse com meus pensamentos focados em Elle.
- Wayne... Lillian enviou-me uma carta. - disse ele. - Ela está pretendendo voltar pra cá e destruí-lo. Obviamente ela nem faz ideia que eu o visito regularmente. Se ela soubesse...
- Carta? Hoje em dia existe meios mais rápidos e práticos para contatar uma pessoa do outro lado do mundo, e ela manda uma carta? - falei, em tom de deboche e em meio a risadas. - Será que ela não se camufla com tecnologia?
- Wayne, a questão não é essa, e você sabe disso. Lillian já conseguiu mantê-lo preso debaixo da terra por alguns séculos. - disse Thomas, com severidade. - Não seria bom um novo contato com ela.
Hallowd estava completamente certo. Quando eu matei Balthier ela simplesmente fez a primeira e mais óbvia coisa que lhe veio à mente, e acabou me trancando dentro de um caixão num momento onde eu estava ferido demais para poder escapar. E isso foi uma estratégia extremamente sábia, pois ela conhecia as fraquezas de um imortal ferido e esfomeado.
- Mas eu consegui escapar, não consegui? - retruquei.
- Com a minha ajuda. Mas, meu sangue te enfraqueceu. - maldito Hallowd, sempre com a razão escorrendo por seus lábios. - E o resultado disso é visível hoje, afinal, você não consegue controlar a mente de um mero humano mais resistente, consegue?
Aquela conversa já estava me deixando nauseado. Hallowd tinha seu autocontrole exagerado, que o mantinha sempre são, não importando a situação na qual se encontrava, e eu tinha minha manipulação sobre a mente, que havia sido enfraquecida quando bebi do sangue de Hallowd para saciar minha sede há alguns anos atrás.
- Wayne Lynch Walters... - disse ele, enquanto caminhava de uma extremidade da sala até a outra. - ... estando em teu lugar, eu me preocuparia com a vinda de Lillian.
- Ela não ousaria erguer um dedo contra mim. - argumentei. - Além do mais, ela tem o sangue de Balthier correndo nas veias dela. Lembre-se que ela tinha um laço de sangue com ele.
- Isso só a torna mais poderosa.
- Errado. Isso a transforma numa forma de restaurar meu poder mental. - expliquei. - Não vê, Hallowd? Meu poder foi amplamente aumentado por causa de Balthier. Seu sangue me transformou num vampiro e aumentou muito minha capacidade de manipular as mentes alheias...
-... e Lillian tem o mesmo sangue correndo em suas veias. Portanto, se você beber dela antes que ela realize qualquer ato para lhe ferir, você pode ter alguma chance contra ela. - completou. - Porém, por mais que seja forte, Wayne, eu duvido que tenha a chance de beber dela antes de ser eliminado. - continuou falando, calmamente. - Apenas com a minha ajuda você conseguiria, pois eu poderia imobilizá-la para que você bebesse. Porém, eu seria cúmplice... e isso não me agrada...
- Oh, quem diria... o ilustre Thomas Hallowd tramando contra sua criadora. - provoquei, esperando obter, no mínimo, uma resposta ofensiva.
-... Ou, você pode recrutar algumas crianças para ajudá-lo. - continuou. Hallowd realmente tinha seu autocontrole super desenvolvido, o que o mantinha frio em qualquer situação.
- Vampiros novos? - perguntei. - Não. Eles são fracos demais, não tem o sangue antigo que corre em nossas veias. Muitas vezes é melhor confiar num único punho milenar do que em milhares de garras infantis.
Hallowd me olhou pensativo. Com certeza estava pensando seriamente em se voltar contra sua criadora, afinal, ela havia abandonado Thomas quando ouviu rumores de que Balthier poderia estar vivo, deixando-o à mercê dos vampiros desordeiros e sem valor que vagavam por Londres. Mas, somente agora eu tinha me dado conta de que minha mente, até agora, estava captando algumas palavras-chave dos pensamentos dele.
Meu poder estava retornando lentamente...


Por Nathan Ritzel Dos Santos

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Vida.

Ando nervosa.
Penso de mais nas nuvens e sonho com quartos grandes, pelos quais caminho como se os conhecesse, mas nunca os vi.
Gosto de fitar o vazio, acho que poderia fazer isso por horas e horas, decorando cada detalhe. Mas por enquanto eu só observo sem razão.
Minhas mãos tremem e eu não me reconheço mais. Meus olhos começam a pesar e ando sempre cansada. Pelo cansaço ela me vence. Por isso ela me prende.
Me vejo tentada todos os dias, a fazer o que faz mal, a tentar o que quero. Mas o que quero seria o que ela me guarda? O que penso mudaria?
Até amanhã eu não percebo a realidade, até amanhã eu me engano. Amanhã chegou, lentamente mostrando que ele sempre chega, se arrastando em minha direção, como algum animal pronto pra me abater, algum animal que não deveria estar lá, aquele que dá o bote e te engole vivo, sabe? Ele te engole vivo e te mata devagar.
E eu sinto eles, eu sinto ela. Eu sinto a sujeira. Os números mentem, todos eles. Acho que só não mentem mais que as pessoas, que quebram promessas quando as fazem.
Talvez eu esteja fugindo, me traindo, traindo ela. Traindo a maravilhosa Vida. Se ao menos eu pudesse a ver com outros olhos, se ao menos eu conseguisse desejá-la, amá-la... Se pudesse senti-la, talvez assim conseguiria entender que coisas que conseguem manter uma conversa. Seria o modo que a boca se mexe? Seria um detalhe na mesa? Seria um sorriso ou o cabelo na frente dos olhos?
No escuro minhas mãos ficam inquietas procurando, procurando a minha Vida que ficou perdida por aí, em algum lugar.
Torça para eu conseguir achá-la.

quinta-feira, 28 de janeiro de 2010

Tempus

Com passadas largas, atravessei a ponte que antes parecia um obstáculo, obstáculo que me impedia de chegar até meus pensamentos. Agora vejo com clareza o que acontece e o que faço, o que penso e o que pretendo.
Com um sorriso de malícia olhei para a escultura de um ser humano perfeito que ele era, e o que quis foi detruí-lo. Nada poderia ser tão belo, nada poderia fazer tanto sentido quanto aquele rosto, naquele corpo, naquele lugar. Era simplesmente fora da realidade que eu conhecia pra quem está acostumado com o mundo real.
Mas destruí-lo seria um pecado. Não que eu acreditasse que seria punida por cometer tal ato. Mas achei melhor deixar o tempo passar, e ele passou. Poderia dizer que nunca o meu deus grego mostrou defeitos, mas a verdade é que o tempo o tornou feio, sem graça e sem brilho. E não havia mais desejo, mais cobiça. Ele simplesmente passou a se tornar mais um. O tempo deu conta de o destruir, e eu apenas levantei e fui embora, o que já deveria ter feito antes. Eu deveria ter ido embora e guardado sua imagem perfeita pelo resto de minha vida.
Mas não o fiz. E agora ele jás imperfeito na minha memória.
Mas isso não mudará o fato de que, por um momento, enquanto seu encanto durou, eu o amei. Eu o amei.

terça-feira, 5 de janeiro de 2010

Penelope.


Será minha próxima personagem, não posso esquecer disso, então vou anotar no blog :D
Po, eu queria saber quem lê ae, sério, eu gosto de saber se as pessoas lêem, nem que sejam só as curtas (nem tão curtas assim), comentem o que quiserem, críticas são bem vindas. Mas não prometo ser legal com quem não for legal comigo, haha.
Porque a próxima será Penelope?
Por causa da música Penelope da Saosin.
Por hoje é só pessoal *morde a cenoura*

segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Ela.


De novo, lá vem ela com tudo, inconstante, destruindo o que tem de bom em mim, o que eu levei tempo pra expulsar. E o nojo e a repulsa que sinto, não podem ser substituídos, a vontade de chorar e as unhas voltam para carne, e a pele cai em volta, morta.
Por onde passam as lagrimas, a vida some, a vontade sucumbiu à dor, e é tarde para um recomeço. Por favor, me deixem em paz, por favor eu quero mais.
Essa sensação é tão intensa, a liberdade é tão boa, a vontade que isso me dá de voar, flutuar pra longe, longe de vocês e de mim. A vontade de parar, parar o tempo e rir de tudo o que vejo.
Ela me abraça e me aperta, me deixando sem ar, me botando em uma posição que me faz querer gritar, gritar de dor, gritar de vergonha.
Enquanto minha garganta sangra e meu corpo se contorce, eu canto o que ela sussurra para mim, e meus olhos perdem o foco, e enfim dou risada, risada de toda essa loucura, de toda imagem, de todo o som.
A risada é a entrada para o choro. As mãos são as que indicam fraqueza. E a sensação só me faz cair cada vez mais.
E agora é definitivo, agora é sem volta. Agora é de verdade.

Choque.

Acordei confusa, estava em meu quarto e me sentia um pouco tonta. Aquilo havia sido uma alucinação como as que tive anteriormente?
- Elle?
Me assustei e soltei um suspiro de pavor, me encolhendo no canto da cama e me agarrando aos cobertores.
- JET? VOCÊ QUER ME MATAR DE SUSTO?
Joguei um travesseiro nele e soltei uma risada.
- O que...
Foi então que vi sua mão inchada e as marcas em seu pescoço. Ele apenas me olhava com frieza, como se estivesse com raiva.
- Elle, quando eu cheguei aqui tinha um cara no seu apartamento, chamado Wayne ou algo do gênero. Quem era ele?
Engoli em seco. Que. Grande. Droga. Ok, não havia sido alucinação minha, Wayne realmente tinha me visitado. Mas porque Jet estava machucado?
- Foi ele que fez isso na sua mão Jê? O que aconteceu? Eu acho que desmaiei, não sei, eu...
Ele olhava para o chão agora, estava tremendo.
- Me deixa pegar algo pra botar na sua mão, espera.
Corri de cima da cama, ouvindo os protestos dele atrás de mim mas o ignorei, peguei a bolsa de gel do congelador e enrolei em um pano.
- Cala a boca Jet, só senta pra eu cuidar de você. Eu vou te explicar tudo. Só... tenha calma ok?
Minha voz ficou trêmula e deixei algumas lágrimas escorrerem. Ele sentou na cadeira, então botei a bolsa de gel em sua mão e ele deu um gemido.
- Eu acho que quebrei... Aquele cara era absurdamente estranho, e bem mais forte que eu.
- Porque vocês brigaram? O que houve?
- Eu vim procurar você, e ele tava no apartamento, falando comigo como se ELE fosse seu namorado. Como se fosse seu dono, ele me mandou dar o fora. Então eu parti pra cima dele.
- O que obviamente foi burrice, você não sabia que...
Vampiros são seres sobrenaturais que mal sentem dor e que são extremamente fortes e podem te matar em um piscar de olhos? Claro que eu não ia dizer isso em voz alta.
-... Que você não faz academia à meses, e ele visivelmente é mais forte que você.
- Quem era esse cara Elle? - Jet levantou o tom de voz e bateu o punho com um pouco de força na mesa.
- Eu... Acho que... - Meus olhos encheram de água, isso estava se tornando ridículo, agora de cinco em cinco minutos eu me transformava em uma criança de 3 anos chorando o tempo inteiro. Respirei fundo e segurei o choro. - Acho que ele me seguiu até em casa, eu o vi apenas uma vez antes de hoje. Eu não sei de onde ele surgiu, mas tá me perseguindo e hoje o encontrei aqui, no meu apartamento! Ele me assustou tanto que acho que apaguei... Jet, eu não to te traindo. Eu não sei da onde esse cara surgiu.
Ficamos em silêncio.
- Eu te amo. - Sussurrei. Então ele se levantou e eu levantei também, pensando que ele iria embora, pronta para implorar para que ficasse.
- Eu também te amo.
Ele me puxou e me abraçou com força.
- Eu fiquei preocupado com você Elle, ninguém sabe de você, sua irmã, sua mãe, eu até liguei para o seu médico, queria saber se você tava indo. Você não tá. Como quer ficar melhor desse jeito? Você me preocupa, estão todos preocupados. Foi um milagre te achar em casa, e eu ainda não sei o que aconteceu com você nas últimas semanas. Se você não quiser falar, tudo bem, mas não continua o que você tá fazendo, estamos todos preocupados.
Agora era definitivo, eu merecia o prêmio de pessoa que mais chorou em duas semanas. Isso não existe, mas se vissem o quanto chorei, aposto que passaria a existir. Ou eu entraria para o Guiness.
Jet estava certo, eu havia me isolado, eu não sabia como lidar com as pessoas, como eu iria explicar o sumiço de Jaime? E como iria explicar meus constantes ataques de choro aparentemente sem motivo? Como eles entenderiam?
Tirei o rosto da camisa agora encharcada do meu namorado e olhei pra ele, que apenas sorriu e me beijou. Nos abraçamos com força e isso me alertou de como seria minha noite, apenas sorri e ele dormiu no meu apartamento.
Mas isso não me impediu de sonhar com Wayne.
Estava de pé em frente a faculdade, que estava deserta. Alguém gritava meu nome. Era Jaime.
- ELLIE! POR FAVOR ELLIE! ME AJUDE!
A voz vinha de todos os lados, não importa para onde eu olhava, encontrava o nada. Então corri em direção aos portões principais, como se dentro fosse mais seguro. Então ouvi aquela risada, que me fez parar e perder o ar. Olhei para frente e lá estava ele. Caminhando lentamente em minha direção, enquanto eu estava paralisada. Perto de mais...
- Bu!
Acordei em um pulo, com os lençóis encharcados de suor. Olhei para os lados e Jet havia deixado um bilhete.
"Tive que trabalhar, você tem médico às 15h, te encontro lá pra te acompanhar, jantaremos juntos. E o que tem o Jaime? Não parou de repetir o nome dele essa noite. Enfim, te amo, até mais tarde. J."
Afundei a cara no travesseiro e fiquei mais alguns minutos na cama.
Passei na faculdade para entregar os livros sobre vampiros que havia retirado, não ficaria obcecada por esse assunto, tinha que me concentrar nas aulas, ir no médico, entregar trabalhos e ligar para todo mundo, principalmente para Val, que havia me ligado tanto quanto Jet. Feito isso, marquei uma janta em minha casa com a Val na quinta feira, já que não teria aula na faculdade nesse dia.
Antes que eu percebesse eram 14:30, tive que ir correndo pegar o metrô pra chegar no médico. Parei em frente ao consultório, eram 14:55 e eu não conseguia parar de tremer. Estava nervosa, tinham falado que eram boas notícias. Mas e se estivessem enganados? Se minha anemia tivesse piorado?
- Ellie! - Jet chegou correndo com a mão enfaixada, devia ter passado no pronto socorro ou algo assim - Vamos?
Quando entramos o Doutor Richard xingava a secretária, que tinha uma expressão horrorizada. Os dois ouviram o barulho da porta e se viraram para nós. Apertei a mão de Jet. Richard nos guiou até a sala dele.
- Elle, houve um erro... As fichas estavam desorganizadas, nossa secretária fez confusão e... Como vou lhe dizer isso... Nós só descobrimos essa confusão hoje pela manhã, quando fui pegar sua ficha e rever ela. O fato é que, Elle, sua anemia evoluiu, e isso foi à cerca de três semanas atrás, estamos com medo de que agora você tenha desenvolvido leucemia. Nós não... Sabemos quanto tempo de vida você tem, precisamos fazer exames para descobrirmos com que velocidade a doença está evoluindo. Nos desculpe, não queríamos lhe proporcionar falsas esperanças.
Ele continuou falando algo sobre exames, estimativas, sobre como o quadro poderia ser revertido. Mas nada estava fazendo sentido para mim. Era o que eu esperava. Senti os braços de Jet ao meu redor. Comecei a suar frio e levantei, os dois olharam pra mim e perguntaram alguma coisa que não entendi. Apenas corri em direção ao banheiro e regurgitei todo o meu almoço na privada do consultório.
O que me restava fazer?