segunda-feira, 4 de janeiro de 2010

Choque.

Acordei confusa, estava em meu quarto e me sentia um pouco tonta. Aquilo havia sido uma alucinação como as que tive anteriormente?
- Elle?
Me assustei e soltei um suspiro de pavor, me encolhendo no canto da cama e me agarrando aos cobertores.
- JET? VOCÊ QUER ME MATAR DE SUSTO?
Joguei um travesseiro nele e soltei uma risada.
- O que...
Foi então que vi sua mão inchada e as marcas em seu pescoço. Ele apenas me olhava com frieza, como se estivesse com raiva.
- Elle, quando eu cheguei aqui tinha um cara no seu apartamento, chamado Wayne ou algo do gênero. Quem era ele?
Engoli em seco. Que. Grande. Droga. Ok, não havia sido alucinação minha, Wayne realmente tinha me visitado. Mas porque Jet estava machucado?
- Foi ele que fez isso na sua mão Jê? O que aconteceu? Eu acho que desmaiei, não sei, eu...
Ele olhava para o chão agora, estava tremendo.
- Me deixa pegar algo pra botar na sua mão, espera.
Corri de cima da cama, ouvindo os protestos dele atrás de mim mas o ignorei, peguei a bolsa de gel do congelador e enrolei em um pano.
- Cala a boca Jet, só senta pra eu cuidar de você. Eu vou te explicar tudo. Só... tenha calma ok?
Minha voz ficou trêmula e deixei algumas lágrimas escorrerem. Ele sentou na cadeira, então botei a bolsa de gel em sua mão e ele deu um gemido.
- Eu acho que quebrei... Aquele cara era absurdamente estranho, e bem mais forte que eu.
- Porque vocês brigaram? O que houve?
- Eu vim procurar você, e ele tava no apartamento, falando comigo como se ELE fosse seu namorado. Como se fosse seu dono, ele me mandou dar o fora. Então eu parti pra cima dele.
- O que obviamente foi burrice, você não sabia que...
Vampiros são seres sobrenaturais que mal sentem dor e que são extremamente fortes e podem te matar em um piscar de olhos? Claro que eu não ia dizer isso em voz alta.
-... Que você não faz academia à meses, e ele visivelmente é mais forte que você.
- Quem era esse cara Elle? - Jet levantou o tom de voz e bateu o punho com um pouco de força na mesa.
- Eu... Acho que... - Meus olhos encheram de água, isso estava se tornando ridículo, agora de cinco em cinco minutos eu me transformava em uma criança de 3 anos chorando o tempo inteiro. Respirei fundo e segurei o choro. - Acho que ele me seguiu até em casa, eu o vi apenas uma vez antes de hoje. Eu não sei de onde ele surgiu, mas tá me perseguindo e hoje o encontrei aqui, no meu apartamento! Ele me assustou tanto que acho que apaguei... Jet, eu não to te traindo. Eu não sei da onde esse cara surgiu.
Ficamos em silêncio.
- Eu te amo. - Sussurrei. Então ele se levantou e eu levantei também, pensando que ele iria embora, pronta para implorar para que ficasse.
- Eu também te amo.
Ele me puxou e me abraçou com força.
- Eu fiquei preocupado com você Elle, ninguém sabe de você, sua irmã, sua mãe, eu até liguei para o seu médico, queria saber se você tava indo. Você não tá. Como quer ficar melhor desse jeito? Você me preocupa, estão todos preocupados. Foi um milagre te achar em casa, e eu ainda não sei o que aconteceu com você nas últimas semanas. Se você não quiser falar, tudo bem, mas não continua o que você tá fazendo, estamos todos preocupados.
Agora era definitivo, eu merecia o prêmio de pessoa que mais chorou em duas semanas. Isso não existe, mas se vissem o quanto chorei, aposto que passaria a existir. Ou eu entraria para o Guiness.
Jet estava certo, eu havia me isolado, eu não sabia como lidar com as pessoas, como eu iria explicar o sumiço de Jaime? E como iria explicar meus constantes ataques de choro aparentemente sem motivo? Como eles entenderiam?
Tirei o rosto da camisa agora encharcada do meu namorado e olhei pra ele, que apenas sorriu e me beijou. Nos abraçamos com força e isso me alertou de como seria minha noite, apenas sorri e ele dormiu no meu apartamento.
Mas isso não me impediu de sonhar com Wayne.
Estava de pé em frente a faculdade, que estava deserta. Alguém gritava meu nome. Era Jaime.
- ELLIE! POR FAVOR ELLIE! ME AJUDE!
A voz vinha de todos os lados, não importa para onde eu olhava, encontrava o nada. Então corri em direção aos portões principais, como se dentro fosse mais seguro. Então ouvi aquela risada, que me fez parar e perder o ar. Olhei para frente e lá estava ele. Caminhando lentamente em minha direção, enquanto eu estava paralisada. Perto de mais...
- Bu!
Acordei em um pulo, com os lençóis encharcados de suor. Olhei para os lados e Jet havia deixado um bilhete.
"Tive que trabalhar, você tem médico às 15h, te encontro lá pra te acompanhar, jantaremos juntos. E o que tem o Jaime? Não parou de repetir o nome dele essa noite. Enfim, te amo, até mais tarde. J."
Afundei a cara no travesseiro e fiquei mais alguns minutos na cama.
Passei na faculdade para entregar os livros sobre vampiros que havia retirado, não ficaria obcecada por esse assunto, tinha que me concentrar nas aulas, ir no médico, entregar trabalhos e ligar para todo mundo, principalmente para Val, que havia me ligado tanto quanto Jet. Feito isso, marquei uma janta em minha casa com a Val na quinta feira, já que não teria aula na faculdade nesse dia.
Antes que eu percebesse eram 14:30, tive que ir correndo pegar o metrô pra chegar no médico. Parei em frente ao consultório, eram 14:55 e eu não conseguia parar de tremer. Estava nervosa, tinham falado que eram boas notícias. Mas e se estivessem enganados? Se minha anemia tivesse piorado?
- Ellie! - Jet chegou correndo com a mão enfaixada, devia ter passado no pronto socorro ou algo assim - Vamos?
Quando entramos o Doutor Richard xingava a secretária, que tinha uma expressão horrorizada. Os dois ouviram o barulho da porta e se viraram para nós. Apertei a mão de Jet. Richard nos guiou até a sala dele.
- Elle, houve um erro... As fichas estavam desorganizadas, nossa secretária fez confusão e... Como vou lhe dizer isso... Nós só descobrimos essa confusão hoje pela manhã, quando fui pegar sua ficha e rever ela. O fato é que, Elle, sua anemia evoluiu, e isso foi à cerca de três semanas atrás, estamos com medo de que agora você tenha desenvolvido leucemia. Nós não... Sabemos quanto tempo de vida você tem, precisamos fazer exames para descobrirmos com que velocidade a doença está evoluindo. Nos desculpe, não queríamos lhe proporcionar falsas esperanças.
Ele continuou falando algo sobre exames, estimativas, sobre como o quadro poderia ser revertido. Mas nada estava fazendo sentido para mim. Era o que eu esperava. Senti os braços de Jet ao meu redor. Comecei a suar frio e levantei, os dois olharam pra mim e perguntaram alguma coisa que não entendi. Apenas corri em direção ao banheiro e regurgitei todo o meu almoço na privada do consultório.
O que me restava fazer?

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