sábado, 6 de fevereiro de 2010

O Diário de Jay Valensi - parte I

"Jay estava sentada na ponte, com as pernas balançando ao ar, olhando para o rio abaixo dela. A correnteza parecia forte, a água parecia furiosa, pronta para engoli-la. Não sentia medo daquele rio raivoso, apertava a madeira onde estava sentada com toda sua força e respirava fundo. Tirou os sapatos, tirou a camiseta, a calça e as meias. Jay se levantou e ficou na beira da ponte, segurando-se nos pilares que separavam o local onde os carros e as pessoas podiam ou não passar. Ela estava no lado no qual não se podia passar.
Ela encarava o rio, que parecia desafia-la. Sentiu raiva, ninguém a desafiava daquele modo, ninguém podia menosprezá-la como ela sentia que aquele rio o estava fazendo. Fechou os olhos e largou os pilares. Ficou parada com um equilibrio sobrenatural, apenas tentando manter o coração calmo.
Havia uma carta para cada pessoa importante para ela, cada uma contando o que tal pessoa deveria saber. Cada carta levando à outra carta, e por fim ao vazio da saudade. Então Jay ouviu gritos à distância, gritos desesperados de várias pessoas. Ela apenas sorriu e se jogou.
Com ela, tudo fora embora: o próprio sofrimento, as horas na frente do espelho, os arranhões pelo corpo inteiro, o amor que ela sentia por todos à sua volta, e o ódio que sentia por tudo. Seu ódio sempre havia superado o seu amor.
E aos poucos seus pensamentos ficavam fracos, não havia mais ar. Ela estava se deixando levar.
Enquanto Jay estava presa em sua versão romântica do suicídio na própria mente, sua namorada, Nina, e seu melhor amigo, Cau, encontravam a realidade no chão da sala. Ela com os pulsos cortados, os dois gritavam desesperados enquanto Jay morria em suas mãos.
Mas Nina chamou a ambulância à tempo. Os paramédicos a socorreram e pararam o sangramento.
Nina e Cau foram com Jay até o hospital, e ficaram por horas na sala de espera. Ambos ansiosos, ambos preocupados. Ambos chorando sem parar, com os rostos sérios, mas úmidos. A mãe de Jay demorou para aparecer.
Senhora Vanlensi, como eles a chamavam. E quando esta soube o que acontecera com a filha, apontou diretamente para Nina, e sem hesitar a culpou pelo sofrimento de Jay. Então Nina apenas tirou da bolsa um caderno vermelho e alcançou para a sogra.
- O que é isso?
- É o diário de Jay Valensi senhora. O achei e li, espero que a senhora o leia e tente conhecer e entender melhor a sua filha. E torça para ela não morrer hoje.
E dizendo isso virou as costas para Vivian Valensi, encarando o médico que havia atendido Jay.
O coração dos três que esperavam pelas palavras daquele homem pararam de bater por um momento. Então ele moveu os lábios lentamente e o som saiu.
- Ela está viva.
Três pares de olhos se encheram d'água, e um par de pernas começou a correr frenéticamente pelo corredor do hospital, olhando dentro de cada quarto. E quando viu Jay, Nina parou. Ela dormia como um anjo.
Nina sentou ao lado da cama, e contentou-se apenas com observar sua namorada enquanto esta estava sobre o efeito de sedativos. Atrás dela entravam Cau e Vivian, e os três ficaram naquele quarto de hospital, esperando Jay acordar, ansiosos. Mas não faziam idéia do que fazer quando acontecesse.
Então, apenas esperaram."

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