- Então, vamos? - perguntou Thomas, já de pé em frente a seu assento. - Wayne? A peça já terminou.
- Ah... sim. Vamos. - respondi, me levantado da confortável poltrona estofada.
Eu ainda estava zonzo e perdido em pensamentos. Será que este maldito estado de confusão iria demorar tanto para passar? E o pior de tudo é que eu ainda estava indeciso. Durante toda a peça pensei em Elle, em visitá-la para... conversarmos. Eu queria somente conversar com ela, me aproximar, me tornar uma espécie de... amigo. Eu sentia que ela precisava de mim tanto quanto eu precisava dela, mas, havia algo errado.
- Wayne, vamos para o carro. - disse Thomas, guiando-me para fora da casa de teatro. - Vamos passear pela cidade.
- Passear? Por acaso eu sou um cachorro com o qual se é preciso passear? - respondi.
- Wayne... somente entre no carro. Eu dirijo. - respondeu, com uma expressão azeda no rosto.
- Hallowd, cale a boca e sente na droga do banco do passageiro. - falei, enquanto me dirigia mais rapidamente para a porta do motorista.
Aparentemente ele havia gostado da súbita normalizada que eu havia tido em meu tom de voz e meu vocabulário, e creio ter visto Hallowd sorrir com o canto de sua boca. Abri a porta do motorista e sentei-me no banco, levando a chave até a ignição e ligando o carro.
- Ah, finalmente em algum lugar onde humanos não podem perceber nossos movimentos diferentes. - disse Hallowd. - Sinceramente, Wayne, eu gostaria de poder caminhar com a velocidade que costumo andar, mas, os humanos perceberiam.
- E eu gostaria de ter asas, agora cale-se, Hallowd.
- Wayne, a melhora em seu temperamento foi boa, mas não exagere. - disse ele, inexpressivo.
Seria melhor pensar ao invés de falar, pois Hallowd poderia ouvir meus pensamentos, então, eu não dava a mínima para o jeito com o qual eu me movia. Eu não conseguia ver beleza nisso, mas sim, praticidade. E isso não importava, afinal, eu estava em um momento decisivo. Eu iria até o apartamento dela? E, será que Hallowd não iria se opor? E o que eu diria a ela? Que eu a amava e queria que ela vivesse comigo?
Bobagem.
- Vamos, eu estou mesmo curioso para saber quem é essa tal Elle. Não que eu não a tenha visto em sua mente, mas, ao vivo é outra coisa, você sabe. - disse Hallowd, seu sotaque inglês totalmente ausente em sua fala. Ele mais parecia um vampiro americano.
Saí da casa de teatro e me dirigi para o bairro onde Elle morava. Não me lembrava exatamente do nome, e eu nunca fora tão bom com nomes, mas sabia lembrar muito bem das imagens. Acho que hoje em dia chamariam isso de memória fotográfica, mas, não faz real diferença. O ponto é que eu dirigia em alta velocidade pela cidade, buscando encontrar rapidamente o apartamento.
E consegui. Encontrei o apartamento com maior facilidade do que o esperado, e estacionei o carro bem em frente ao local. Ainda dentro do carro, desligado, olhei para Hallowd, e ele me encarou por algum tempo. Pensei tê-lo ouvido dizer um irônico "preparado?", mas acho que foi somente minha imaginação. Descemos do carro e Hallowd perguntou:
- Prefere entrar pela porta ou algo mais furtivo?
- Vamos entrar furtivamente. - respondi.
- Sabe qual é o apartamento? - perguntou.
- Sei, agora, me siga. - falei, enquanto corria e saltava a enorme grade que prevenia a entrada de pessoas não autorizadas, como nós.
Essa parte eu achava interessante. Pular e usufruir da gravidade era magnífico. Magnífico e simples, assim como correr ou manter o passo similar ao dos humanos. A parte seguinte era um pouco mais trabalhosa, mas nem por isso deixava de ser interessante, pois escalar uma parede enorme era algo... divertido. Hallowd tinha até mais facilidade que eu, mas isso também não importava.
Quando enfim chegamos na janela de sua cozinha arrebentei as armações de ferro e o vidro, causando um grande barulho dentro do apartamento. Por ali Hallowd e eu entramos no apartamento, e caminhamos calmamente para a sala de estar, enquanto Hallowd me criticava pela nossa "entrada triunfal".
- Se queria quebrar algo, poderíamos ter matado o porteiro. Além do mais, estamos sedentos. Deveríamos ter feito isso mesmo... - disse ele, enquanto eu tentava pensar em um meio de chamar Elle sem assustá-la.
Mas, o barulho do vidro não teria sido suficiente para chamar sua atenção? Provavelmente ela estava dormindo, e logo iria se levantar para ver o que havia acontecido. Então iria encontrar dois imortais bem vestidos em sua sala, esperando por ela, e provavelmente desmaiaria. Mas, eu queria que ela não desmaiasse, que pudéssemos conversar, e assim, nos tornarmos... amigos.
Era algo tremendamente infantil pensar em ser amigo da garota pela qual eu estava apaixonado, mas, eu queria algum tipo de aproximação amigável. Eu não queria que ela me visse como o "vampiro sanguinário que quer me transformar", e sim como uma espécie de conselheiro. Eu queria saber sobre o seu dia, queria notícias dela, queria fazer parte da vida dela.
- Wayne, sua amiga estará aqui em poucos segundos. - disse Hallowd, e suas palavras soaram como uma previsão, pois dali a alguns segundos Elle apareceu no corredor com cara de sono e um pouco assustada.
Ela nos olhou com medo, mas não disse nada. Eu pensei em algo para dizer, mas minha voz não saía. Hallowd deu um passo à frente e estendeu a mão para ela, que estava a uns 4m à sua frente. Ela não recuou, mas também não veio ao seu encontro. Então, por um instante pude perceber que ela estava vendo não a mim e Thomas na sala escura, mas sim duas figuras escuras.
- Elle? - disse Hallowd. - Não precisa ter medo. Eu e o Wayne não vamos te fazer nenhum mal.
- Viemos aqui para conversar. - falei, minha voz estava trêmula. - Elle... este é Thomas Hallowd, um companheiro de longa data.
- É um prazer conhecê-la, senhorita. E pode me chamar de Thomas. - disse ele, gesticulando com as mãos num gesto de cordialidade, algo muito usado na época que foi transformado.
Mas Elle não respondeu. Ela com certeza estava prestes a desmaiar, mas eu pedia fervorosamente em minha mente para isso não acontecer. Era um momento crucial, e nada podia sair errado. Mas, a grande verdade era que eu pensava que isso tudo fosse um plano, enquanto me deixei levar por meus impulsos. Ótimo, tenho o momento que eu queria, e não sei o que dizer.
Vamos Elle... diga algo...
Por Nathan Ritzel Dos Santos
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