Um inimigo natural da nossa raça é o sol. O sol pode destruir um vampiro completamente, queimando sua pele e transformando-o em cinzas. Até mesmo os raios de sol filtrados por uma cortina escura podem nos afligir, e por isso preferimos, quando acordamos ao dia, permanecer em cômodos escuros e esperar o sol se pôr, para que nossa caçada seja iniciada.
Hoje é um destes dias. Aquela maldita garota estava em meus sonhos novamente! Ela perambulava por minha morada trajando roupas molhadas e sujas, pois chovia naquela noite, e chorava. Resmungava ladainhas sem sentido e suplicava para que eu a transformasse em uma imortal. E foi na sala de estar que eu fui tomado pela raiva e acabei ferindo a garota, que ainda implorava pela imortalidade.
Mas eu não o fazia, eu não a transformava. Eu apenas olhava para ela, com seus cabelos desgrenhados, e mexia a cabeça negativamente, enquanto ela corria em minha direção, tentando me abraçar, aos prantos. E eu, num acesso de raiva, segurava seus pulsos com minhas mãos e os erguia na altura de seu belo rosto, onde as lágrimas haviam transformado seus delicados olhos nos olhos de uma sofredora que clama pelo seu objetivo.
Não sei por que isso me fez despertar mais cedo, mas, me encheu de ódio. Aquela garota, além de ter conquistado um bom espaço em minha mente, também me fazia levantar durante o dia. Maldita! Durante minha vida imortal eu raramente despertava antes do sol se pôr. Geralmente era nessa mesma hora crepuscular que os imortais despertavam, cada um em sua devida hora, mas todos após o crepúsculo.
Suas palavras não saíam da minha mente. "Wayne, você sabe o que tem que fazer...", dizia ela, "... eu preciso disso, eu preciso...". Seria meu poder mental que estava tentando me revelar algo? Não... provavelmente era mais um desejo reprimido. Ah, que se dane! Preciso para de pensar em coisas como essas.
- Wayne? - disse uma figura masculina, irrompendo da janela.
Me virei para a janela e vi Thomas parado em sua frente, ajeitando e limpando o fino paletó, que, pelos detalhes e pelo bordado, eu julguei ser italiano.
- Hallowd...? - perguntei, surpreso.
- Não me chame pelo meu sobrenome, você sabe que eu odeio isso. - disse ele, ainda passando as mãos sobre a fina camada de poeira sobre o paletó.
- Certo... - foi a única coisa que consegui dizer. Ah, eu parecia um cãozinho obediente. - Hallowd, por que você está parado na minha sala de estar sem ser convidado?
- Thomas. - corrigiu ele. - Quantas vezes terei de insistir?
- Dá pra responder a minha pergunta? - esbravejei.
- Hoje resolvi caçar com você, acabei de acordar e estou sedento. E, claro, eu pretendia ir ao teatro e assistir alguma peça, isso se você me acompanhar. - disse ele, calmamente.
Só então que percebi que na janela pela qual Hallowd entrara que o céu estava enegrecido. Eu havia passado tanto tempo perdido em pensamentos que nem vi o tempo passar.
- Que horas são? - perguntei.
- São... - disse ele, olhando para o relógio em seu pulso esquerdo. -... 20:27.
- Droga!
- O que houve? Tinha algum compromisso importante? - perguntou, com as mãos já livres e com o paletó aparentemente limpo.
- Eu despertei em torno das 17 horas. Droga! Passei três horas pensando naquela maldita garota!
E quando me dei conta estava gritando ofensas para o vazio da minha sala de estar. Thomas havia sumido, mas ele ainda estava na casa, pois eu podia ouvir algumas palavras de seus pensamentos. Mas, havia algo de diferente, pois eu conseguia ouvir com nitidez, mesmo que fossem apenas duas ou três palavras em cada frase, mas, os sussurros e chiados que eu ouvia antes agora eram nítidos. Sons limpos.
- Gostando de ler minha mente? - perguntou Thomas, enquanto subia as escadas que davam para a sala de estar.
- Você... também pode? - perguntei atônito.
- É claro. A leitura de pensamentos é uma habilidade inata dos vampiros. Eu não costumo usá-la, mas, é realmente útil às vezes. - explicou ele.
- Mas... eu pensei que fosse o único... - era algo aterrador ter meu grande dom reduzido a algo comum.
- Não. Você tem um dom único, você pode manipular a mente das pessoas, de fato, mas faz isso de uma forma que nem eu entendo...
Thomas caminhava de um lado ao outro da sala com a mão direita tocando seu queixo. Eu agora estava vendo que era apenas um simples vampiro, um vampiro antigo enfraquecido pelo sangue de um então vampiro jovem. Mas, por mais que o sangue de Hallowd tivesse me enfraquecido e que ele carregasse o sangue de Lillian em suas veias, eu não conseguia ter ódio dele, afinal, ele me fez companhia durante todos estes séculos.
Mas, meu dom divino, minha gloriosa manipulação mental tinha sido reduzida a uma mera habilidade comum. Eu nunca soube que os outros vampiros podiam invadir as mentes de imortais e mortais. E, na verdade, eu sempre acreditei que cada vampiro recebesse o dom das trevas de forma diferente, recebendo uma espécie de poder exclusivo que o tornava único. Mas, até isso foi desmentido... e, pelo visto, Hallowd tinha seu poder mental mais desenvolvido que o meu.
- Wayne? Está me ouvindo? - perguntou Thomas.
- Ah... desculpe, eu estava... - tentei me explicar. -... pensando.
- Wayne, você realmente não está normal. Percebe o que acabou de fazer? - perguntou. - Você se desculpou! Acho que está com sede... venha, vamos ao teatro, o espetáculo começará em meia hora.
- Vamos...
Saímos de minha morada e entramos em meu carro, que estava cuidadosamente estacionado ao lado do carro de Thomas. "Eu dirijo", disse ele, logo que entramos no carro, e eu realmente não estava em condições de dirigir. Minha mente há muito estava confusa, e eu já não conseguia pensar em nada com clareza. Será que eu estava aplicando o meu próprio poder em mim mesmo?
- Wayne. Somente pare de pensar. - disse Thomas, enquanto dirigia. - Você sabe que muitos de nós enlouquecem procurando respostas.
Mas, como vou saber o que eu posso fazer? Preciso conhecer minhas limitações! - falei.
- Então faça testes, mas saia do teórico. - falou, enquanto davas rápidas olhadas para mim e para a estrada, alternadamente. - Você tem perguntas, de fato, mas isso não significa que elas precisem ser respondidas. Podemos viver nos perguntando, mas jamais nos dando o luxo de achar razão para tudo.
- Entendo... mas, e quanto a garota? - já me sentia mais calmo, mas Elle continuava me preocupando.
- Se você a quer tanto quando teus sonhos lhe dizem, então vá conversar com ela.
- Eu já perguntei a ela se ela quer a vida eterna, e pretendo vê-la logo. - falei.
- Bom... então, chegamos no teatro. - disse ele, estacionando o carro no estacionamento ao lado da grande casa de teatro.
Permanecemos quietos naqueles momentos, até que descemos do carro e nos dirigimos para a entrada do teatro. Tudo parecia calmo ali, e eu pude compreender a mente do recepcionista com mais clareza que a de Hallowd. Ele percebeu que eu havia constatado isso e apenas assentiu com o olhar. Então entramos no grande teatro, sentamo-nos em duas poltronas vagas na primeira fila e esperamos o espetáculo começar.
Mas, mesmo tendo os olhos fixos no palco e o corpo relaxado na poltrona, minha mente estava inquieta. Minha mente era palco de uma peça sobre uma garota amada por um imortal enfraquecido que logo encontraria sua algoz, e talvez fosse isso que estivesse me deixando tão paranóico. Lillian iria voltar, e com certeza não se contentaria em machucar somente a mim...
- Wayne, preste atenção na peça, por favor. - disse Thomas, percebendo a agitação em minha mente.
- Ah, a peça... - e tentei limpar minha mente para absorver a peça. Até deu certo, mas, mesmo assim, minha mente permanecia preocupada. E minhas preocupações estavam somente começando...
Por Nathan Ritzel dos Santos
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário