Eram cinco e meia da manhã e eu não conseguia dormir. Esse tipo de situação estava ficando muito comum, provavelmente teria que começar com remédios para dormir também. Já havia feito os exames, e também havia recebido os resultados, sobre os quais não havia comentado com ninguém, apenas continuei meus dias normalmente. O meu médico, Richard, havia me alertado sobre os resultados e estimativas dos exames à três dias, e o tempo estava passando.
- Seis semanas Elle, se formos otimistas... Desculpe, sua doença evoluiu de maneira anormal, não temos o que fazer.
Só de pensar naquela tarde, no consultório, meu estômago embrulhava. Corri para o banheiro e mandei toda a minha janta da noite anterior descarga abaixo. Nada mais estava parando no meu estômago. Já havia perdido 4 quilos e não agüentava mais o Jet me mimando, minha irmã Val, vindo todo dia me visitar no apartamento e nem minha mãe, ligando de 30 em 30 minutos para saber se eu continuava viva. Todos me irritavam por me amarem tanto. Levantei do chão e resolvi ligar para Val, ela merecia já que havia me acordado cedo todos os dias da semana.
- Alô? - A voz sonolenta dela atendeu do outro lado da linha.
- Oi sis, tudo bem?
- Elle, que porra é essa? Que horas são?
- Quase seis horas sis, tá fazendo um... - tentei olhar para fora e vi relâmpagos, e uma tempestade se anunciar - Dia horrível hoje, porque você não vem me fazer companhia aqui em casa?
- Que? Agora?
- Claro, antes que comece essa tormenta que se aproxima, ó, querida irmã! Não irás me abandonar nesse momento, não é? - Falei, com uma dose excessiva de drama.
- Você tá se aproveitando da sua situação pra me tirar do sério... Mas eu vou.
- Te aguardo, vou fazer o café da manhã. - A idéia de comer alguma coisa fez meu estômago revirar.
- Ok ok.
Desliguei o telefone e sentei na cama. Val demoraria cerca de meia hora. Meia hora a menos. Os dias estavam passando, e meu prazo de validade chegando cada vez mais perto. Respirei fundo e me segurei para não chorar. Meu plano era passar o dia com Val, e tentar contar à ela não sobre a doença, mas sobre Wayne. Apesar de toda essa história de leucemia, por vezes eu esquecia completamente disso e ele aparecia em minhas lembranças, simplesmente brotava, como se eu não conseguisse controlar meus pensamentos. O convite que ele me fizera antes, de juntar-me à ele como imortal, agora me parecia sugestivo. Exceto por um pequeno detalhe: Eu ainda era muito humana. Não podia me desapegar de todos assim tão facilmente.
Epa, que besteira eu estava pensando! Me juntar a um vampiro? Haha, até parece. Ainda mais à um vampiro que matou alguém que era como um pai pra mim. Jaime... Seu corpo havia sido encontrado, julgaram ser um caso de ataque de animais.
Absurdo.
DING DONG!
Corri até a porta e dei de cara com o nada. Fiquei encarando o corredor vazio e engoli em seco. Eu estava imaginando coisas, apenas isso. Estava doente e muito alucinada com os remédios que estava tomando, apenas isso. Fechei a porta e tentei me concentrar.
- Ok, panquecas!
Cerca de 20 minutos depois Val tocou a campainha, com cara de quem não havia gostado de ser acordada às 6 da manhã de um sábado e quatro cafés em uma bandeja.
- Espero que você tenha feito algo muito bom, e que tenha também, uma desculpa muito boa pra me acordar.
- Eu... estava sem sono, e com saudades. E também é vingança, quando você estava grávida fazia coisas muito piores comigo.
- Por falar nisso, a Lin foi passar alguns dias com o Tim.
- Ok... - Coloquei as panquecas na mesa, esperando explicações dela.
- Ele... acha melhor... a gente não expor a Lin de mais, sabe? E eu também quero passar um tempo a mais com você e...
- Sis?
- Oi.
- Tem certeza que é isso? Não aconteceu nada?
Silêncio.
- Valerie!
- Eu... Tomei alguns remédios pra dormir, deixei alguns caírem no chão, a Lin deu algum jeito de sair do berço e ela engoliu os comprimidos... Se não fosse o Tim chegar pra buscar ela, eu não sei o que teria acontecido Ellie!
Val estava aos prantos, a abracei e beijei sua testa.
- Val, calma! Ele não vai poder tirar ela de você, nós vamos dar um jeito ok?
- Não sei o que seria de mim sem você sis! Se ele tirar minha filha de mim... Se você...
- Eu sei... Eu...
Limpei minhas lágrimas e as dela.
- Sei que é uma péssima hora Val mas...
Ela me olhou com os olhos vermelhos e eu simplesmente não consegui. Era de mais pra mim. Então simplesmente esqueci tudo o que pretendia contar a ela e dei um sorriso.
- Vamos jogar Guitar Hero? Você acaba comigo nesse jogo!
- Claro! - Ela sorriu.
Mas minha vida não continuaria daquele modo. Eu não sabia como contar à todos, e achava que nem contaria. Nas horas que eu sentia muita dor, eu fingia estar cansada e ia me deitar por um tempo, ou tomava alguns remédios além do que devia.
Val passou o fim de semana inteiro comigo.
E eu só conseguia pensar em Wayne e invocá-lo em meus pensamentos. Eu estava sofrendo e fazendo os outros à minha volta sofrerem comigo, e queria que ele desse um fim à isso. Mas como? Eu só queria que a dor parasse.
sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010
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