sexta-feira, 19 de fevereiro de 2010

Quem ganha?

Eu não sou uma pessoa de rostos. Eu aprecio detalhes, coisas vistas bem de perto. Como uma ruga de expressão, ou uma veia mais marcada sob a pele. Eu acho bonito o jeito como a pele se sobrepõe aos ossos, e as mascaras aos rostos.
E por trás dos pequenos gestos e dos míseros detalhes, que vi algo grande chegando. Eu estava triste. Na verdade, sou triste, mas fiquei realmente triste quando soube que alguém próximo a mim era INFELIZ. E então uma onda de descargas emocionais foi liberada pelo meu corpo inteiro, e eu simplesmente cheguei a uma conclusão definitiva sobre tudo aquilo, aquelas pessoas que tinham duas caras, que falavam com uma voz quando estavam perto, mas com outra ao longe. A conclusão foi que eu ganharia. De qualquer modo, Eu ganho.

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Invasores.

Acordei com um estardalhaço enorme vindo da cozinha. Minha cabeça estava doendo muito, e aquele barulho não havia ajudado em nada. Saí debaixo das cobertas e senti um calafrio.
Oops, mal sinal. Será que era um assassino que gostaria de encurtar ainda mais a minha vida? Ou um ladrão idiota que tentou não fazer barulho sem sucesso? Muito improvável, quem quer que fosse, queria que eu soubesse que estava lá. Eu torcia para que fosse um sonho, ou efeito colateral de algum remédio, eu não estava em condições para lutar pela minha vida no momento.
Respirei fundo e saí da cama, mas ao fazer isso bati o dedinho do pé no criado mudo, e reprimi um gemido de dor. Ótima hora pra ser desastrada. OK, deixei o dedinho pra lá e com cuidado segui em direção à sala que era iluminada por um grande letreiro do super mercado que havia em frente ao prédio. Menos mal, pelo menos na sala eu conseguia ver por onde andava. A atravessei, e ao chegar à porta da cozinha fiquei paralisada e arregalei os olhos.
Infelizmente a luz do letreiro não chegava a invadir a cozinha. A única coisa que invadia a minha cozinha naquele momento, eram duas figuras altas e desconhecidas.
Engoli em seco. Sim, eu estava com medo e MUITO puta. Conseguia ver os estilhaços da janela, iluminados pela luz da lua que passava pela janela quebrada, mas eu ainda assim não conseguia identificar os invasores.
Uma das figuras se aproximou e estendeu a mão.
- Elle? Não precisa ter medo. Eu e o Wayne não vamos te fazer nenhum mal.
Espera aí, Wayne?
- Viemos aqui para conversar. Elle... este é Thomas Hallowd, um companheiro de longa data.
- É um prazer conhecê-la, senhorita. E pode me chamar de Thomas.
Só podia ser uma alucinação, sabia que não devia ter tomado tantos remédios. Só podia ser um sonho MUITO louco.
Ou não.
Minha respiração começou a falhar, tentei me apoiar na parede. Eles queriam conversar. O que diabos dois vampiros queriam conversar comigo?
- Ok. Eu... vou me trocar... e...
Comecei a correr em direção ao meu quarto. Não faço IDÉIA do porque, já que a porta ficava na COZINHA.
Cheguei na porta do quarto e parei de novo. Aquilo não podia ser real.
Wayne estava parado, com uma expressão serena, olhando pela janela, enquanto o seu amigo, Thomas 'algo que eu não entendi' mexia em minhas coisas.
- HEY! - Protestei, mas nenhum deles deu bola.
- Rice, Laurell, Nobre... belíssima escolha. Então, o que acha de nós, os imortais? - Perguntou o desconhecido com os livros que eu havia adquirido recentemente em mãos.
Ok, eu estava tremendo. Era um ataque de nervos, definitivamente. Dificuldade para respirar, suando frio. Nada, nada, nada bom.
- O que é isso? Qual o motivo disso tudo? - Perguntei com a voz trêmula.
Eu olhava de Wayne pra Thomas, e de Thomas pra Wayne. E foi ele quem respondeu.
- Elle, acalme-se - ele começou a vir em minha direção, colocou uma mão em meu ombro e com a outra gesticulou em direção a minha cama. - Sente-se aqui.
Seu toque me acalmou um pouco, ao mesmo tempo que me deixou alarmada. Aquilo era BEM real, e não me restava nada a não ser fazer o que eles pediam. E sim, eu queria me sentar.
Sentei e encarei o chão, Wayne estava perto de mim enquanto Thomas folheava 'Irmãs de Sangue'.
- Quais destes você já leu? - Ergui o rosto para olhá-lo e ele sorriu para mim.
- Hallowd, cale-se.
- Wayne, ao invés de me criticar você poderia falar o que está pensando, não é? E sim, sua ideia é boa.
Wayne revirou os olhos.
- Elle, tem calmantes em casa?
Assenti com a cabeça. Eles iam me dopar? Iam me matar depois disso? Poxa, eu já tinha um prazo de validade curto, eles não podiam ser bonzinhos comigo? De qualquer modo, indiquei o armário dos remédios dentro do banheiro.
- Frasco laranja grande. Ele tá bem na frente, eu acho.
Quando olhei ao redor, percebi que Thomas não estava mais lá.
Wayne voltava do banheiro com o frasco na mão, e quando olhei pra frente Thomas havia se materializado com um copo de água na mão. Uau, bem que eu gostaria de um desses 24h por dia.
Wayne botou uma capsula na mão e a estendeu para mim. Fiquei olhando para a mão dele e mordi meu lábio inferior.
- Dois? - Me perguntou arqueando as sobrancelhas. Dei de ombros e ri nervosa. Ele estendeu as duas cápsulas e Thomas me alcançou o copo. Pronto, agora era só esperar...
E enquanto esperava, olhei para minha escrivaninha e para a prateleira de livros e senti um arrepio.
- Quando que ...?
Estava tudo inacreditavelmente organizado, como nunca havia estado antes. Acho que nem Valerie conseguiria organizar minhas coisas daquele modo. Thomas apenas sorria, como se estivesse achando graça. Eu só estava achando macabro.
Quando me virei para Wayne, tive uma sensação muito estranha, ele olhava pra mim de um modo que me deixava confusa, sem saber se eu continuava olhando ou se desviava o olhar. Mas eu queria continuar olhando... Afastei esses pensamentos e percebi como isso era estranho.
- Wayne? Pare de me olhar assim! É... é... estranho - Botei minha mão nos olhos dele. Percebi que eu tinha sido grossa com ele, então, olhei pra ele, enquanto Thomas ria. - E você! Thomas, não?
- Sim. - Respondeu com um sorriso. Aquilo estava me dando nos nervos, ele simplesmente não conseguia parar!
- O que é sempre tão engraçado pra você? Eu não vejo merda de graça nenhuma!
- O que é tão engraçado é ver que você ganhou um mascote, garota.
Franzi a testa e olhei para Wayne.
- Hallowd, porque você não se cala e some da minha frente?
- Wayne, perto dela você parece estar doente.
Doente. Desviei o olhar de Wayne e me senti um pouco mal. Desde que os vi, esqueci completamente da MINHA doença. Pareciam dois mundos diferentes, que não coexistiam. Leucemia e vampiros?
Ergui o rosto e Thomas me olhava sério, fiquei meio espantada com a capacidade que ele tinha de mudar, de uma expressão zombeteira, para tamanha seriedade.
Não pense nisso.
Ouvi a voz de Thomas claramente, mas os lábios dele não se mexeram. Ele estava... dentro da minha mente.
Agora ele falava com Wayne.
- Acho que é hora de deixá-los a sós. Devem ter assuntos interessantes para conversar, não é, Elle? - Olhos em mim novamente e deu aquele sorriso que me dava vontade de socar a cara dele. Virou de costas em direção à saída, mas parou na porta.
- Te espero no carro.
Então eu estava sozinha com Wayne em meu quarto

segunda-feira, 15 de fevereiro de 2010

Convidados.

- Então, vamos? - perguntou Thomas, já de pé em frente a seu assento. - Wayne? A peça já terminou.
- Ah... sim. Vamos. - respondi, me levantado da confortável poltrona estofada.
Eu ainda estava zonzo e perdido em pensamentos. Será que este maldito estado de confusão iria demorar tanto para passar? E o pior de tudo é que eu ainda estava indeciso. Durante toda a peça pensei em Elle, em visitá-la para... conversarmos. Eu queria somente conversar com ela, me aproximar, me tornar uma espécie de... amigo. Eu sentia que ela precisava de mim tanto quanto eu precisava dela, mas, havia algo errado.
- Wayne, vamos para o carro. - disse Thomas, guiando-me para fora da casa de teatro. - Vamos passear pela cidade.
- Passear? Por acaso eu sou um cachorro com o qual se é preciso passear? - respondi.
- Wayne... somente entre no carro. Eu dirijo. - respondeu, com uma expressão azeda no rosto.
- Hallowd, cale a boca e sente na droga do banco do passageiro. - falei, enquanto me dirigia mais rapidamente para a porta do motorista.
Aparentemente ele havia gostado da súbita normalizada que eu havia tido em meu tom de voz e meu vocabulário, e creio ter visto Hallowd sorrir com o canto de sua boca. Abri a porta do motorista e sentei-me no banco, levando a chave até a ignição e ligando o carro.
- Ah, finalmente em algum lugar onde humanos não podem perceber nossos movimentos diferentes. - disse Hallowd. - Sinceramente, Wayne, eu gostaria de poder caminhar com a velocidade que costumo andar, mas, os humanos perceberiam.
- E eu gostaria de ter asas, agora cale-se, Hallowd.
- Wayne, a melhora em seu temperamento foi boa, mas não exagere. - disse ele, inexpressivo.
Seria melhor pensar ao invés de falar, pois Hallowd poderia ouvir meus pensamentos, então, eu não dava a mínima para o jeito com o qual eu me movia. Eu não conseguia ver beleza nisso, mas sim, praticidade. E isso não importava, afinal, eu estava em um momento decisivo. Eu iria até o apartamento dela? E, será que Hallowd não iria se opor? E o que eu diria a ela? Que eu a amava e queria que ela vivesse comigo?
Bobagem.
- Vamos, eu estou mesmo curioso para saber quem é essa tal Elle. Não que eu não a tenha visto em sua mente, mas, ao vivo é outra coisa, você sabe. - disse Hallowd, seu sotaque inglês totalmente ausente em sua fala. Ele mais parecia um vampiro americano.
Saí da casa de teatro e me dirigi para o bairro onde Elle morava. Não me lembrava exatamente do nome, e eu nunca fora tão bom com nomes, mas sabia lembrar muito bem das imagens. Acho que hoje em dia chamariam isso de memória fotográfica, mas, não faz real diferença. O ponto é que eu dirigia em alta velocidade pela cidade, buscando encontrar rapidamente o apartamento.
E consegui. Encontrei o apartamento com maior facilidade do que o esperado, e estacionei o carro bem em frente ao local. Ainda dentro do carro, desligado, olhei para Hallowd, e ele me encarou por algum tempo. Pensei tê-lo ouvido dizer um irônico "preparado?", mas acho que foi somente minha imaginação. Descemos do carro e Hallowd perguntou:
- Prefere entrar pela porta ou algo mais furtivo?
- Vamos entrar furtivamente. - respondi.
- Sabe qual é o apartamento? - perguntou.
- Sei, agora, me siga. - falei, enquanto corria e saltava a enorme grade que prevenia a entrada de pessoas não autorizadas, como nós.
Essa parte eu achava interessante. Pular e usufruir da gravidade era magnífico. Magnífico e simples, assim como correr ou manter o passo similar ao dos humanos. A parte seguinte era um pouco mais trabalhosa, mas nem por isso deixava de ser interessante, pois escalar uma parede enorme era algo... divertido. Hallowd tinha até mais facilidade que eu, mas isso também não importava.
Quando enfim chegamos na janela de sua cozinha arrebentei as armações de ferro e o vidro, causando um grande barulho dentro do apartamento. Por ali Hallowd e eu entramos no apartamento, e caminhamos calmamente para a sala de estar, enquanto Hallowd me criticava pela nossa "entrada triunfal".
- Se queria quebrar algo, poderíamos ter matado o porteiro. Além do mais, estamos sedentos. Deveríamos ter feito isso mesmo... - disse ele, enquanto eu tentava pensar em um meio de chamar Elle sem assustá-la.
Mas, o barulho do vidro não teria sido suficiente para chamar sua atenção? Provavelmente ela estava dormindo, e logo iria se levantar para ver o que havia acontecido. Então iria encontrar dois imortais bem vestidos em sua sala, esperando por ela, e provavelmente desmaiaria. Mas, eu queria que ela não desmaiasse, que pudéssemos conversar, e assim, nos tornarmos... amigos.
Era algo tremendamente infantil pensar em ser amigo da garota pela qual eu estava apaixonado, mas, eu queria algum tipo de aproximação amigável. Eu não queria que ela me visse como o "vampiro sanguinário que quer me transformar", e sim como uma espécie de conselheiro. Eu queria saber sobre o seu dia, queria notícias dela, queria fazer parte da vida dela.
- Wayne, sua amiga estará aqui em poucos segundos. - disse Hallowd, e suas palavras soaram como uma previsão, pois dali a alguns segundos Elle apareceu no corredor com cara de sono e um pouco assustada.
Ela nos olhou com medo, mas não disse nada. Eu pensei em algo para dizer, mas minha voz não saía. Hallowd deu um passo à frente e estendeu a mão para ela, que estava a uns 4m à sua frente. Ela não recuou, mas também não veio ao seu encontro. Então, por um instante pude perceber que ela estava vendo não a mim e Thomas na sala escura, mas sim duas figuras escuras.
- Elle? - disse Hallowd. - Não precisa ter medo. Eu e o Wayne não vamos te fazer nenhum mal.
- Viemos aqui para conversar. - falei, minha voz estava trêmula. - Elle... este é Thomas Hallowd, um companheiro de longa data.
- É um prazer conhecê-la, senhorita. E pode me chamar de Thomas. - disse ele, gesticulando com as mãos num gesto de cordialidade, algo muito usado na época que foi transformado.
Mas Elle não respondeu. Ela com certeza estava prestes a desmaiar, mas eu pedia fervorosamente em minha mente para isso não acontecer. Era um momento crucial, e nada podia sair errado. Mas, a grande verdade era que eu pensava que isso tudo fosse um plano, enquanto me deixei levar por meus impulsos. Ótimo, tenho o momento que eu queria, e não sei o que dizer.
Vamos Elle... diga algo...


Por Nathan Ritzel Dos Santos

domingo, 14 de fevereiro de 2010

Convite.

Ok, eu definitivamente não tinha habilidades na cozinha.
Val estava me ajudando a fazer um prato francês, muito chique, que eu não fazia IDÉIA de como se comia. Parecia algo bonito de mais pra se mastigar.
- Val pode me ajudar aqui?
- Problemas com a marinada agora, Elle?
- Com a mari o que?!
Olhava para minha irmã com uma cara desesperada. Ela riu, terminou de dourar as sobre coxas de frango.
- É só por na panela Elle, eu fiz a marinada ontem.
- Ok desculpa, mas eu não sei cozinhar, nunca precisei saber muita coisa. O Jet sabe. E meus limites são panquecas e arroz.
- Ok, eu termino, dá isso aqui. Você me alcança os ingredientes.
Fora três queimaduras no braço, me saí bem cozinhando Coq au vin pela primeira vez. Nunca tinha cozinhado algo assim antes. Queria aprender, antes de... Bom, não poder mais cozinhar.
Jet que estava na sala, ao sentir o cheiro da comida correu para a cozinha.
- O que teremos hoje?
- Coq au vin! - Respondeu Val, com um francês impecável. Jet fez uma cara de quem não entende nada, e eu só dei de ombros e virei para pegar os talheres. Os Quatro pratos já estavam na mesa, e Kent, meu colega na faculdade, veio da sala para se juntar à nós.
A única pessoa que conseguia comer normalmente era Val, nós três (Eu, Jet e Kent) nos encarávamos, espetávamos o garfo na mini galinha e logo desistíamos.
- Qual o problema? Vocês nem tocaram na comida!
- Eu não sei comer isso Val, desculpa. - Kent se acusou e ergueu os braços. Encarei a galinha no meu prato, respirei fundo e a peguei com as mãos, comendo ela feito um animal. Os homens da mesa riram e me imitaram. Val me olhou perplexa com tamanha 'falta de civilização', mas não deram 10 segundos e começou a nos imitar.
- Elle, você já fez o trabalho do professor Hidley? Sei que é só pro mês que vem, mas tem que se adiantar, não?
Olhei para Kent sem expressão alguma em meu rosto, Jet e Val pararam de comer. Eu já havia contado para eles sobre a notícia que o médico havia me dado. Eles estavam tentando fingir que nada havia mudado, mas naquele instante eles vacilaram, deixando Kent constrangido. Ele não sabia da doença.
- Vou sim Kent, Tá quase pronto. Sobre o que vai ser sua história?
- Acho que vou fazer algo parecido com Fup, a fábula da pata, sabe?
- Uhum, interessante.
- E você?
- Vampiros. - Falei encarando meu prato. O silêncio foi tanto que tive que erguer meus olhos. Os três me olhavam com uma expressão estranha.
Depois disso, tentei não falar muito. O jantar seguiu normalmente, até Kent ir embora e Jet vir falar comigo enquanto Val tirava a mesa.
- Elle, podemos conversar?
- Claro. - Cruzei os braços.
- A Val me disse que você continua falando durante o sono. Sobre Jaime e... bem, vampiros?
Engoli em seco.
- Você acha que um vampiro atacou o Jaime, Elle?
Jet estava tentando segurar o riso, e aquilo me irritou muito. Ele estava sendo um idiota. Queria ver o que ele diria, apenas afirmei com a cabeça.
- Elle, foi algum animal que atacou o Jaime, e com todos esses remédios você deve estar confundindo sonhos e realidade. Você tem lido muito Crepúsculo.
- Eu não li Crepúsculo, se eu quisesse ler sobre vampiros eu leria Anne Rice.
Ele se assustou com a rispidez que transparecia na minha voz.
- Ok, o que eu realmente queria dizer era que você não precisa fazer trabalho para a faculdade.
- Que?
- Pra que se estressar em uma hora dessas, Elle? Com trabalhos e provas? Porque você não abandona a faculdade e vamos fazer uma viagem? Sua mãe ia gostar disso.
- Minha mãe ia amar qualquer plano que me levasse pra longe dela, Jet.
- Não fale assim da sua mãe... - Ele falou baixo, o ignorei e continuei.
- E você tem o que na cabeça? Viajarmos juntos? Não se sabe quanto tempo eu ainda vou viver! A cada dia que passa eu me sinto pior.
- Hey Elle, porque tá gritando? - Val entrou na sala com cara de preocupada.
- Você apóia essa idéia de viagem Valerie?
Silêncio.
- Sim, ela apóia, e até queria vir junto.
Fechei os olhos e trinquei meus dentes, eu estava furiosa. Eles não conseguiam enxergar o que estavam sugerindo.
- Sua mãe já foi na faculdade e...
Isso foi a gota d'água.
- Desde quando você tem mantido contato com a minha mãe sem que eu soubesse Jet?
- ...
- Ok, não precisa responder. Mas querem saber de uma coisa? Eu não vou abandonar porra de faculdade nenhuma, não vou viajar com ninguém, não pra vocês acordarem algum dia e verem que meu corpo está frio e sem vida. Eu NÃO quero isso, e eu vou concluir meus trabalhos até onde eu conseguir, e agora eu vou pra MINHA casa, e não quero NINGUÉM me ligando ou me seguindo. Vocês já me aborreceram o suficiente pra um dia. Vocês queriam me poupar, mas adivinhem só, não adiantou NADA!
Peguei minha bolsa, praticamente marchei em direção à porta e fui a pé para casa, uma caminhada de 15 minutos só com meus pensamentos seria tortura, eles haviam tramado tudo pelas minhas costas, Jet sugeria contando com o fato de que eu iria aceitar esse convite ridículo, e como Valerie podia concordar com isso? Respirei fundo e ascendi um cigarro.
Cheguei ao prédio me sentindo mais calma, subi às escadas e parei em frente à minha porta. Estava me sentindo terrivelmente fraca, entrei e peguei meus remédios, os engoli a seco e caí na cama.

Companhia.

Um inimigo natural da nossa raça é o sol. O sol pode destruir um vampiro completamente, queimando sua pele e transformando-o em cinzas. Até mesmo os raios de sol filtrados por uma cortina escura podem nos afligir, e por isso preferimos, quando acordamos ao dia, permanecer em cômodos escuros e esperar o sol se pôr, para que nossa caçada seja iniciada.
Hoje é um destes dias. Aquela maldita garota estava em meus sonhos novamente! Ela perambulava por minha morada trajando roupas molhadas e sujas, pois chovia naquela noite, e chorava. Resmungava ladainhas sem sentido e suplicava para que eu a transformasse em uma imortal. E foi na sala de estar que eu fui tomado pela raiva e acabei ferindo a garota, que ainda implorava pela imortalidade.
Mas eu não o fazia, eu não a transformava. Eu apenas olhava para ela, com seus cabelos desgrenhados, e mexia a cabeça negativamente, enquanto ela corria em minha direção, tentando me abraçar, aos prantos. E eu, num acesso de raiva, segurava seus pulsos com minhas mãos e os erguia na altura de seu belo rosto, onde as lágrimas haviam transformado seus delicados olhos nos olhos de uma sofredora que clama pelo seu objetivo.
Não sei por que isso me fez despertar mais cedo, mas, me encheu de ódio. Aquela garota, além de ter conquistado um bom espaço em minha mente, também me fazia levantar durante o dia. Maldita! Durante minha vida imortal eu raramente despertava antes do sol se pôr. Geralmente era nessa mesma hora crepuscular que os imortais despertavam, cada um em sua devida hora, mas todos após o crepúsculo.
Suas palavras não saíam da minha mente. "Wayne, você sabe o que tem que fazer...", dizia ela, "... eu preciso disso, eu preciso...". Seria meu poder mental que estava tentando me revelar algo? Não... provavelmente era mais um desejo reprimido. Ah, que se dane! Preciso para de pensar em coisas como essas.
- Wayne? - disse uma figura masculina, irrompendo da janela.
Me virei para a janela e vi Thomas parado em sua frente, ajeitando e limpando o fino paletó, que, pelos detalhes e pelo bordado, eu julguei ser italiano.
- Hallowd...? - perguntei, surpreso.
- Não me chame pelo meu sobrenome, você sabe que eu odeio isso. - disse ele, ainda passando as mãos sobre a fina camada de poeira sobre o paletó.
- Certo... - foi a única coisa que consegui dizer. Ah, eu parecia um cãozinho obediente. - Hallowd, por que você está parado na minha sala de estar sem ser convidado?
- Thomas. - corrigiu ele. - Quantas vezes terei de insistir?
- Dá pra responder a minha pergunta? - esbravejei.
- Hoje resolvi caçar com você, acabei de acordar e estou sedento. E, claro, eu pretendia ir ao teatro e assistir alguma peça, isso se você me acompanhar. - disse ele, calmamente.
Só então que percebi que na janela pela qual Hallowd entrara que o céu estava enegrecido. Eu havia passado tanto tempo perdido em pensamentos que nem vi o tempo passar.
- Que horas são? - perguntei.
- São... - disse ele, olhando para o relógio em seu pulso esquerdo. -... 20:27.
- Droga!
- O que houve? Tinha algum compromisso importante? - perguntou, com as mãos já livres e com o paletó aparentemente limpo.
- Eu despertei em torno das 17 horas. Droga! Passei três horas pensando naquela maldita garota!
E quando me dei conta estava gritando ofensas para o vazio da minha sala de estar. Thomas havia sumido, mas ele ainda estava na casa, pois eu podia ouvir algumas palavras de seus pensamentos. Mas, havia algo de diferente, pois eu conseguia ouvir com nitidez, mesmo que fossem apenas duas ou três palavras em cada frase, mas, os sussurros e chiados que eu ouvia antes agora eram nítidos. Sons limpos.
- Gostando de ler minha mente? - perguntou Thomas, enquanto subia as escadas que davam para a sala de estar.
- Você... também pode? - perguntei atônito.
- É claro. A leitura de pensamentos é uma habilidade inata dos vampiros. Eu não costumo usá-la, mas, é realmente útil às vezes. - explicou ele.
- Mas... eu pensei que fosse o único... - era algo aterrador ter meu grande dom reduzido a algo comum.
- Não. Você tem um dom único, você pode manipular a mente das pessoas, de fato, mas faz isso de uma forma que nem eu entendo...
Thomas caminhava de um lado ao outro da sala com a mão direita tocando seu queixo. Eu agora estava vendo que era apenas um simples vampiro, um vampiro antigo enfraquecido pelo sangue de um então vampiro jovem. Mas, por mais que o sangue de Hallowd tivesse me enfraquecido e que ele carregasse o sangue de Lillian em suas veias, eu não conseguia ter ódio dele, afinal, ele me fez companhia durante todos estes séculos.
Mas, meu dom divino, minha gloriosa manipulação mental tinha sido reduzida a uma mera habilidade comum. Eu nunca soube que os outros vampiros podiam invadir as mentes de imortais e mortais. E, na verdade, eu sempre acreditei que cada vampiro recebesse o dom das trevas de forma diferente, recebendo uma espécie de poder exclusivo que o tornava único. Mas, até isso foi desmentido... e, pelo visto, Hallowd tinha seu poder mental mais desenvolvido que o meu.
- Wayne? Está me ouvindo? - perguntou Thomas.
- Ah... desculpe, eu estava... - tentei me explicar. -... pensando.
- Wayne, você realmente não está normal. Percebe o que acabou de fazer? - perguntou. - Você se desculpou! Acho que está com sede... venha, vamos ao teatro, o espetáculo começará em meia hora.
- Vamos...
Saímos de minha morada e entramos em meu carro, que estava cuidadosamente estacionado ao lado do carro de Thomas. "Eu dirijo", disse ele, logo que entramos no carro, e eu realmente não estava em condições de dirigir. Minha mente há muito estava confusa, e eu já não conseguia pensar em nada com clareza. Será que eu estava aplicando o meu próprio poder em mim mesmo?
- Wayne. Somente pare de pensar. - disse Thomas, enquanto dirigia. - Você sabe que muitos de nós enlouquecem procurando respostas.
Mas, como vou saber o que eu posso fazer? Preciso conhecer minhas limitações! - falei.
- Então faça testes, mas saia do teórico. - falou, enquanto davas rápidas olhadas para mim e para a estrada, alternadamente. - Você tem perguntas, de fato, mas isso não significa que elas precisem ser respondidas. Podemos viver nos perguntando, mas jamais nos dando o luxo de achar razão para tudo.
- Entendo... mas, e quanto a garota? - já me sentia mais calmo, mas Elle continuava me preocupando.
- Se você a quer tanto quando teus sonhos lhe dizem, então vá conversar com ela.
- Eu já perguntei a ela se ela quer a vida eterna, e pretendo vê-la logo. - falei.
- Bom... então, chegamos no teatro. - disse ele, estacionando o carro no estacionamento ao lado da grande casa de teatro.
Permanecemos quietos naqueles momentos, até que descemos do carro e nos dirigimos para a entrada do teatro. Tudo parecia calmo ali, e eu pude compreender a mente do recepcionista com mais clareza que a de Hallowd. Ele percebeu que eu havia constatado isso e apenas assentiu com o olhar. Então entramos no grande teatro, sentamo-nos em duas poltronas vagas na primeira fila e esperamos o espetáculo começar.
Mas, mesmo tendo os olhos fixos no palco e o corpo relaxado na poltrona, minha mente estava inquieta. Minha mente era palco de uma peça sobre uma garota amada por um imortal enfraquecido que logo encontraria sua algoz, e talvez fosse isso que estivesse me deixando tão paranóico. Lillian iria voltar, e com certeza não se contentaria em machucar somente a mim...
- Wayne, preste atenção na peça, por favor. - disse Thomas, percebendo a agitação em minha mente.
- Ah, a peça... - e tentei limpar minha mente para absorver a peça. Até deu certo, mas, mesmo assim, minha mente permanecia preocupada. E minhas preocupações estavam somente começando...


Por Nathan Ritzel dos Santos

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

Dor.

Eram cinco e meia da manhã e eu não conseguia dormir. Esse tipo de situação estava ficando muito comum, provavelmente teria que começar com remédios para dormir também. Já havia feito os exames, e também havia recebido os resultados, sobre os quais não havia comentado com ninguém, apenas continuei meus dias normalmente. O meu médico, Richard, havia me alertado sobre os resultados e estimativas dos exames à três dias, e o tempo estava passando.
- Seis semanas Elle, se formos otimistas... Desculpe, sua doença evoluiu de maneira anormal, não temos o que fazer.
Só de pensar naquela tarde, no consultório, meu estômago embrulhava. Corri para o banheiro e mandei toda a minha janta da noite anterior descarga abaixo. Nada mais estava parando no meu estômago. Já havia perdido 4 quilos e não agüentava mais o Jet me mimando, minha irmã Val, vindo todo dia me visitar no apartamento e nem minha mãe, ligando de 30 em 30 minutos para saber se eu continuava viva. Todos me irritavam por me amarem tanto. Levantei do chão e resolvi ligar para Val, ela merecia já que havia me acordado cedo todos os dias da semana.
- Alô? - A voz sonolenta dela atendeu do outro lado da linha.
- Oi sis, tudo bem?
- Elle, que porra é essa? Que horas são?
- Quase seis horas sis, tá fazendo um... - tentei olhar para fora e vi relâmpagos, e uma tempestade se anunciar - Dia horrível hoje, porque você não vem me fazer companhia aqui em casa?
- Que? Agora?
- Claro, antes que comece essa tormenta que se aproxima, ó, querida irmã! Não irás me abandonar nesse momento, não é? - Falei, com uma dose excessiva de drama.
- Você tá se aproveitando da sua situação pra me tirar do sério... Mas eu vou.
- Te aguardo, vou fazer o café da manhã. - A idéia de comer alguma coisa fez meu estômago revirar.
- Ok ok.
Desliguei o telefone e sentei na cama. Val demoraria cerca de meia hora. Meia hora a menos. Os dias estavam passando, e meu prazo de validade chegando cada vez mais perto. Respirei fundo e me segurei para não chorar. Meu plano era passar o dia com Val, e tentar contar à ela não sobre a doença, mas sobre Wayne. Apesar de toda essa história de leucemia, por vezes eu esquecia completamente disso e ele aparecia em minhas lembranças, simplesmente brotava, como se eu não conseguisse controlar meus pensamentos. O convite que ele me fizera antes, de juntar-me à ele como imortal, agora me parecia sugestivo. Exceto por um pequeno detalhe: Eu ainda era muito humana. Não podia me desapegar de todos assim tão facilmente.
Epa, que besteira eu estava pensando! Me juntar a um vampiro? Haha, até parece. Ainda mais à um vampiro que matou alguém que era como um pai pra mim. Jaime... Seu corpo havia sido encontrado, julgaram ser um caso de ataque de animais.
Absurdo.
DING DONG!
Corri até a porta e dei de cara com o nada. Fiquei encarando o corredor vazio e engoli em seco. Eu estava imaginando coisas, apenas isso. Estava doente e muito alucinada com os remédios que estava tomando, apenas isso. Fechei a porta e tentei me concentrar.
- Ok, panquecas!
Cerca de 20 minutos depois Val tocou a campainha, com cara de quem não havia gostado de ser acordada às 6 da manhã de um sábado e quatro cafés em uma bandeja.
- Espero que você tenha feito algo muito bom, e que tenha também, uma desculpa muito boa pra me acordar.
- Eu... estava sem sono, e com saudades. E também é vingança, quando você estava grávida fazia coisas muito piores comigo.
- Por falar nisso, a Lin foi passar alguns dias com o Tim.
- Ok... - Coloquei as panquecas na mesa, esperando explicações dela.
- Ele... acha melhor... a gente não expor a Lin de mais, sabe? E eu também quero passar um tempo a mais com você e...
- Sis?
- Oi.
- Tem certeza que é isso? Não aconteceu nada?
Silêncio.
- Valerie!
- Eu... Tomei alguns remédios pra dormir, deixei alguns caírem no chão, a Lin deu algum jeito de sair do berço e ela engoliu os comprimidos... Se não fosse o Tim chegar pra buscar ela, eu não sei o que teria acontecido Ellie!
Val estava aos prantos, a abracei e beijei sua testa.
- Val, calma! Ele não vai poder tirar ela de você, nós vamos dar um jeito ok?
- Não sei o que seria de mim sem você sis! Se ele tirar minha filha de mim... Se você...
- Eu sei... Eu...
Limpei minhas lágrimas e as dela.
- Sei que é uma péssima hora Val mas...
Ela me olhou com os olhos vermelhos e eu simplesmente não consegui. Era de mais pra mim. Então simplesmente esqueci tudo o que pretendia contar a ela e dei um sorriso.
- Vamos jogar Guitar Hero? Você acaba comigo nesse jogo!
- Claro! - Ela sorriu.
Mas minha vida não continuaria daquele modo. Eu não sabia como contar à todos, e achava que nem contaria. Nas horas que eu sentia muita dor, eu fingia estar cansada e ia me deitar por um tempo, ou tomava alguns remédios além do que devia.
Val passou o fim de semana inteiro comigo.
E eu só conseguia pensar em Wayne e invocá-lo em meus pensamentos. Eu estava sofrendo e fazendo os outros à minha volta sofrerem comigo, e queria que ele desse um fim à isso. Mas como? Eu só queria que a dor parasse.

Desenho.

Oi.
Sabe, eu estava procurando pelo nosso desenho, lembra dele? Eu passei os últimos meses pensando sobre o que estava errado comigo. Mas eu acabei de perceber, que não é essa a questão.
Eu tenho pensando em você muito ultimamente, mas não do modo que eu costumava pensar. Nós éramos tão bons juntos, não consigo lembrar de momentos ruins na sua presença. Só quando eu estava bem longe.
E isso me levou ao desenho.
Eu estava desesperada ontem à noite, pois não conseguia lembrar do seu rosto. Eu estava deitada na cama, esperando o sono me atacar, e meus pensamentos voaram. E eles voaram diretamente em você. Mas eu não sabia quem você era, não lembrava do rosto e nem do nome. E por um momento eu fiquei desesperada. Eu conseguia lembrar claramente das suas palavras, então começei a caminhar pelo meu quarto. Eu estava frustrada. Mas então, algo me fez lembrar.
Seu rosto veio à minha mente e varreu tudo dela. Eu não conseguia pensar em mais nada, e começei a me perguntar se com o rosto, os sonhos também sumiriam.
Estou grata por não ter te visto por um tempo, me levou à este lugar aqui. Onde me encontro. E tudo está claro.
O pouco de tempo que passamos juntos,não quero esquecer isso. Eu só quero esquecer você, mas nunca o que você me fez sentir.
Você me mudou sem saber. Mas nesse momento, eu decidi que vou esquecer de você. Eu vou queimar o nosso desenho. Eu acordei pensando nisso, porque sonhei com você. Você estava falando sobre os meus olhos. Sobre as cores dele. E sobre as cores dele enquanto estávamos juntos. Foi um sonho lindo, onde você realmente me amava. Estou feliz por ele já estar desaparecendo. Aos poucos. E aqueles antigos sonhos, quando você me disse que me amava, eles permanecem muito fortes.
Você acredita que eu sou capaz de te esquecer? Eu não te odeio, talvez você me odeie. Se eu te esquecer, você me esquecerá?
Se eu nos queimar, você ficará triste? Pois eu simplesmente não me importo mais.
Eu achei que você tinha que saber essas coisas, mesmo que eu não esteja falando essas coisas pra você. Eu sei que você sabe. Em algum lugar, no seu coração, na sua cabeça ou nas suas memórias, você sabia no que eu me tornaria. Você sabia o que nós nos tornaríamos.
Eu só tenho que te agradecer, e te desejar boa sorte, eu gostaria que você me desejasse boa sorte também.
Te amarei para sempre, sem rosto e sem nome, farei uma fogueira com as nossas lembranças.

sábado, 6 de fevereiro de 2010

O Diário de Jay Valensi - parte I

"Jay estava sentada na ponte, com as pernas balançando ao ar, olhando para o rio abaixo dela. A correnteza parecia forte, a água parecia furiosa, pronta para engoli-la. Não sentia medo daquele rio raivoso, apertava a madeira onde estava sentada com toda sua força e respirava fundo. Tirou os sapatos, tirou a camiseta, a calça e as meias. Jay se levantou e ficou na beira da ponte, segurando-se nos pilares que separavam o local onde os carros e as pessoas podiam ou não passar. Ela estava no lado no qual não se podia passar.
Ela encarava o rio, que parecia desafia-la. Sentiu raiva, ninguém a desafiava daquele modo, ninguém podia menosprezá-la como ela sentia que aquele rio o estava fazendo. Fechou os olhos e largou os pilares. Ficou parada com um equilibrio sobrenatural, apenas tentando manter o coração calmo.
Havia uma carta para cada pessoa importante para ela, cada uma contando o que tal pessoa deveria saber. Cada carta levando à outra carta, e por fim ao vazio da saudade. Então Jay ouviu gritos à distância, gritos desesperados de várias pessoas. Ela apenas sorriu e se jogou.
Com ela, tudo fora embora: o próprio sofrimento, as horas na frente do espelho, os arranhões pelo corpo inteiro, o amor que ela sentia por todos à sua volta, e o ódio que sentia por tudo. Seu ódio sempre havia superado o seu amor.
E aos poucos seus pensamentos ficavam fracos, não havia mais ar. Ela estava se deixando levar.
Enquanto Jay estava presa em sua versão romântica do suicídio na própria mente, sua namorada, Nina, e seu melhor amigo, Cau, encontravam a realidade no chão da sala. Ela com os pulsos cortados, os dois gritavam desesperados enquanto Jay morria em suas mãos.
Mas Nina chamou a ambulância à tempo. Os paramédicos a socorreram e pararam o sangramento.
Nina e Cau foram com Jay até o hospital, e ficaram por horas na sala de espera. Ambos ansiosos, ambos preocupados. Ambos chorando sem parar, com os rostos sérios, mas úmidos. A mãe de Jay demorou para aparecer.
Senhora Vanlensi, como eles a chamavam. E quando esta soube o que acontecera com a filha, apontou diretamente para Nina, e sem hesitar a culpou pelo sofrimento de Jay. Então Nina apenas tirou da bolsa um caderno vermelho e alcançou para a sogra.
- O que é isso?
- É o diário de Jay Valensi senhora. O achei e li, espero que a senhora o leia e tente conhecer e entender melhor a sua filha. E torça para ela não morrer hoje.
E dizendo isso virou as costas para Vivian Valensi, encarando o médico que havia atendido Jay.
O coração dos três que esperavam pelas palavras daquele homem pararam de bater por um momento. Então ele moveu os lábios lentamente e o som saiu.
- Ela está viva.
Três pares de olhos se encheram d'água, e um par de pernas começou a correr frenéticamente pelo corredor do hospital, olhando dentro de cada quarto. E quando viu Jay, Nina parou. Ela dormia como um anjo.
Nina sentou ao lado da cama, e contentou-se apenas com observar sua namorada enquanto esta estava sobre o efeito de sedativos. Atrás dela entravam Cau e Vivian, e os três ficaram naquele quarto de hospital, esperando Jay acordar, ansiosos. Mas não faziam idéia do que fazer quando acontecesse.
Então, apenas esperaram."

quinta-feira, 4 de fevereiro de 2010

Ameaça

Hallowd me fizera uma visita noite passada. Em geral, eu odiava suas visitas, porque ele sempre questionava alguns fatos de meu passado, afirmando que eu ainda estava vagando pelo mundo por sua causa. Ele me despertara, mas, eu o induzi a isso, pois meu controle mental era mais forte naquele tempo. Seu sangue me enfraqueceu, e ele sabe disso.
Mas, sua visita não fora tão desagradável quanto as outras. Desta vez ele trouxe à tona um fato que poderia ter incitado minha raiva, se eu não estivesse com meus pensamentos focados em Elle.
- Wayne... Lillian enviou-me uma carta. - disse ele. - Ela está pretendendo voltar pra cá e destruí-lo. Obviamente ela nem faz ideia que eu o visito regularmente. Se ela soubesse...
- Carta? Hoje em dia existe meios mais rápidos e práticos para contatar uma pessoa do outro lado do mundo, e ela manda uma carta? - falei, em tom de deboche e em meio a risadas. - Será que ela não se camufla com tecnologia?
- Wayne, a questão não é essa, e você sabe disso. Lillian já conseguiu mantê-lo preso debaixo da terra por alguns séculos. - disse Thomas, com severidade. - Não seria bom um novo contato com ela.
Hallowd estava completamente certo. Quando eu matei Balthier ela simplesmente fez a primeira e mais óbvia coisa que lhe veio à mente, e acabou me trancando dentro de um caixão num momento onde eu estava ferido demais para poder escapar. E isso foi uma estratégia extremamente sábia, pois ela conhecia as fraquezas de um imortal ferido e esfomeado.
- Mas eu consegui escapar, não consegui? - retruquei.
- Com a minha ajuda. Mas, meu sangue te enfraqueceu. - maldito Hallowd, sempre com a razão escorrendo por seus lábios. - E o resultado disso é visível hoje, afinal, você não consegue controlar a mente de um mero humano mais resistente, consegue?
Aquela conversa já estava me deixando nauseado. Hallowd tinha seu autocontrole exagerado, que o mantinha sempre são, não importando a situação na qual se encontrava, e eu tinha minha manipulação sobre a mente, que havia sido enfraquecida quando bebi do sangue de Hallowd para saciar minha sede há alguns anos atrás.
- Wayne Lynch Walters... - disse ele, enquanto caminhava de uma extremidade da sala até a outra. - ... estando em teu lugar, eu me preocuparia com a vinda de Lillian.
- Ela não ousaria erguer um dedo contra mim. - argumentei. - Além do mais, ela tem o sangue de Balthier correndo nas veias dela. Lembre-se que ela tinha um laço de sangue com ele.
- Isso só a torna mais poderosa.
- Errado. Isso a transforma numa forma de restaurar meu poder mental. - expliquei. - Não vê, Hallowd? Meu poder foi amplamente aumentado por causa de Balthier. Seu sangue me transformou num vampiro e aumentou muito minha capacidade de manipular as mentes alheias...
-... e Lillian tem o mesmo sangue correndo em suas veias. Portanto, se você beber dela antes que ela realize qualquer ato para lhe ferir, você pode ter alguma chance contra ela. - completou. - Porém, por mais que seja forte, Wayne, eu duvido que tenha a chance de beber dela antes de ser eliminado. - continuou falando, calmamente. - Apenas com a minha ajuda você conseguiria, pois eu poderia imobilizá-la para que você bebesse. Porém, eu seria cúmplice... e isso não me agrada...
- Oh, quem diria... o ilustre Thomas Hallowd tramando contra sua criadora. - provoquei, esperando obter, no mínimo, uma resposta ofensiva.
-... Ou, você pode recrutar algumas crianças para ajudá-lo. - continuou. Hallowd realmente tinha seu autocontrole super desenvolvido, o que o mantinha frio em qualquer situação.
- Vampiros novos? - perguntei. - Não. Eles são fracos demais, não tem o sangue antigo que corre em nossas veias. Muitas vezes é melhor confiar num único punho milenar do que em milhares de garras infantis.
Hallowd me olhou pensativo. Com certeza estava pensando seriamente em se voltar contra sua criadora, afinal, ela havia abandonado Thomas quando ouviu rumores de que Balthier poderia estar vivo, deixando-o à mercê dos vampiros desordeiros e sem valor que vagavam por Londres. Mas, somente agora eu tinha me dado conta de que minha mente, até agora, estava captando algumas palavras-chave dos pensamentos dele.
Meu poder estava retornando lentamente...


Por Nathan Ritzel Dos Santos

terça-feira, 2 de fevereiro de 2010

Vida.

Ando nervosa.
Penso de mais nas nuvens e sonho com quartos grandes, pelos quais caminho como se os conhecesse, mas nunca os vi.
Gosto de fitar o vazio, acho que poderia fazer isso por horas e horas, decorando cada detalhe. Mas por enquanto eu só observo sem razão.
Minhas mãos tremem e eu não me reconheço mais. Meus olhos começam a pesar e ando sempre cansada. Pelo cansaço ela me vence. Por isso ela me prende.
Me vejo tentada todos os dias, a fazer o que faz mal, a tentar o que quero. Mas o que quero seria o que ela me guarda? O que penso mudaria?
Até amanhã eu não percebo a realidade, até amanhã eu me engano. Amanhã chegou, lentamente mostrando que ele sempre chega, se arrastando em minha direção, como algum animal pronto pra me abater, algum animal que não deveria estar lá, aquele que dá o bote e te engole vivo, sabe? Ele te engole vivo e te mata devagar.
E eu sinto eles, eu sinto ela. Eu sinto a sujeira. Os números mentem, todos eles. Acho que só não mentem mais que as pessoas, que quebram promessas quando as fazem.
Talvez eu esteja fugindo, me traindo, traindo ela. Traindo a maravilhosa Vida. Se ao menos eu pudesse a ver com outros olhos, se ao menos eu conseguisse desejá-la, amá-la... Se pudesse senti-la, talvez assim conseguiria entender que coisas que conseguem manter uma conversa. Seria o modo que a boca se mexe? Seria um detalhe na mesa? Seria um sorriso ou o cabelo na frente dos olhos?
No escuro minhas mãos ficam inquietas procurando, procurando a minha Vida que ficou perdida por aí, em algum lugar.
Torça para eu conseguir achá-la.