quarta-feira, 23 de dezembro de 2009

Reencontro.

As duas semanas que se passaram depois daquele episódio aterrorizante na beira da estrada foram maçantes. Eu não comia, não conseguia me concentrar na faculdade, não conseguia falar direito com ninguém.
Eu havia abandonado o corpo de Jaime na estrada aquela noite, e o mais estranho foi que nada sobre o corpo foi divulgado em lugar nenhum. Talvez aquele homem, aquele ser tivesse dado um jeito de escondê-lo. Ou talvez ninguém soubesse o que havia acontecido e preferiam ocultar toda a história. Eu não fui ao encontro das autoridades, nem de ninguém.
Toda vez que eu pensava em recordar o modo como Jaime havia morrido para poder relatar à alguém, as coisas que eu havia imaginado ou visto... eu desatava a chorar. E era essa a questão. Eu não sabia se aquilo tudo havia sido real ou apenas fruto da minha imaginação. Será que eu estava me transformando em um Tyler Durden? Dois em um? Que espécie de mente doente imaginaria algo desse tipo?
Não, aquilo HAVIA acontecido. Era impossível Jaime sumir assim, e ainda mais impossível que eu tivesse o matado. Sem rastro nenhum, sem sangue.
Wayne. Esse era o nome que me assombrava noite após noite, sorrindo para mim e estendendo meu brinco, me convidando a me juntar à ele. Algo em mim dizia que sim, Wayne existia, e ele era algo extraordinário que me intrigava, mas do qual eu deveria manter distância.
“- Minha cara, estou lhe oferecendo um presente, um dom. Gostaria de ser imortal?”
- Senhorita Wess? Algo errado?
Olhei em volta, todos me encaravam preocupados, então percebi que eu estava rangendo os dentes e chorando. Limpei meu rosto e levantei.
- Desculpe Senhor Rigged, mas eu poderia tomar um ar?
- Claro, vá vá.
Saí da sala e fui até o banheiro, me olhei no espelho e revirei os olhos.
- Ridícula.
Liguei a torneira e joguei água no rosto, mas quando sequei-o e abri os olhos novamente, vi a imagem do misterioso Wayne no lugar da minha, refletido no espelho, e mais uma vez gritei. Mas bastou piscar para a imagem desaparecer.
- RIDÍCULA RIDÍCULA! - Chutei a lata de lixo do banheiro e saí com pressa. Estava ficando maluca, no dia seguinte mesmo procuraria algum profissional, algum psiquiatra ou psicanalista, caso contrário começaria a arrancar meus cabelos. Resolvi ir até a biblioteca e procurar algum livro, mas o que eu encontrei foi algum tipo de feira de quadrinhos, pessoas vestidas de Superman, The Flash e outros super heróis. Até que algo chamou minha atenção.
'WAYNE'. Na verdade dizia 'BRUCE WAYNE'. Era um cartaz grande, muito bem feito, com o milionário Wayne e o herói Batman desenhados, a metade de cada um. Foi então que as coisas pareceram se conectar.
O homem morcego.
Isso me fez correr em direção à biblioteca, me xingando baixinho o caminho todo. Claro, porque não? Quem disse que vampiros não existem? Fazia perfeito sentido, não sabia como não tinha pensado naquilo antes. Me direcionei ao balcão da bibliotecária.
- Vocês tem alguma sessão sobre vampiros?
A mulher me olhou estranho, e indicou uma prateleira. Olhei naquela direção e vi que era a parte de ficção.
- Não não, eu digo, aquele tipo de livro que vemos nos filmes sabe? Grandes, antigos, sobre a suposta história da origem de vampiros, lobisomens, unicórnios...?
Sorri para fazer graça, mas não adiantou nada.
- Desculpa, mas não estamos em um filme.
Com isso suspirei e fui até a prateleira de ficção vampiresca. O que fiz foi retirar três livros de autores diferentes, queria ver o que eu conseguia espremer da ficção, se seria algo parecido com o qual eu havia passado duas semanas antes.
Resolvi reler o romance de Anne Rice, 'Entrevista com o Vampiro', 'Prazeres Malditos' me chamou atenção por seu título, de Laurell K. Hamilton, e por fim, 'Irmãs de Sangue', de Rick Nobre. Não sei o que esperava encontrar nesses livros, mas logo que os retirei fui direto para casa. Quando cheguei larguei tudo no chão e fui direto para o banho.
Quando saí já vestida, apertei o botão da secretária para ouvir os recados. A maioria deles eram iguais.
"Elle? Onde você anda? Fazem dias que não ouço de você, poderia me ligar? Val."
"Senhorita Wess, você perdeu seu horário com o Doutor Richard na quarta-feira, gostaria de remarcar? Ligue-nos o mais rápido possível, temos boas notícias!"
"Elle, é o Jet, porque não responde às minhas ligações? Precisamos conversar, acho que isso não está funcionando..."
"Filha, você me deve explicações para esse sumiço..."
Enquanto ouvia fui em direção à porta, onde havia deixado minhas coisas. Agora era minha irmã que falava na secretária.
"Elle, porque o Jet me ligou perguntando de você? Porque a mamãe me perguntou de você? Porque TODO MUNDO me liga querendo saber de você? O que tá acontecendo einh?..."
Meu sangue gelou. Minhas coisas não estavam mais no chão. Fiquei 5 segundos parada, olhando para o mesmo lugar. Então engoli em seco e olhei em volta. Estava tudo em cima da mesa, organizado. Livros empilhados, materiais organizados com a matéria do dia aberta, e ainda uma xícara cheia do que, pelo cheiro, eu suspeitava ser café.
- Vampiro... Wayne?
Sussurrei. Como que ouvindo ao meu chamado, ele praticamente se materializou na outra extremidade da sala.
- Chamou, milady?
Mais uma vez, aquele sorriso zombeteiro estava em minha frente. As lembranças me atingiram em cheio como um bastão de baseball.
- Já tenho uma resposta sua? Já sabe se quer se tornar imortal? Pelo visto o assunto a interessou...
Ele apontou os livros em cima da mesa e eu acompanhei com o olhar. Muda. Estarrecida.
Comecei a me sentir fraca e a tremer. Então tudo ficou escuro.

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