"Esplêndida", foi a única coisa que pensei quando a vi. Fazia pouco tempo que havia despertado, e a bela visão daquela garota despertou-me um interesse descomunal. Hallowd chamaria isso de "paixão vampiresca", mas isso é um termo muito ridículo, e prefiro dizer que sua beleza exterior era similar ao aroma de seu sangue, que me convidava, debochando.
Havia um homem, o motorista, junto com ela no carro. Creio ter ouvido o nome "Jaime" em minha mente, e certamente o homem calvo se chamava assim. Mas a bela dama ofuscava minha visão, sua beleza era radiante, uma beleza que eu não via há séculos. E eu a segui.
Quando o carro parou, em frente a uma construção abandonada, tratei de vigiar de cima de uma árvore, e vi Jaime sair pela porta do motorista e abrir o capô do carro. Provavelmente estava verificando algum defeito no motor, pois o ouvi dizer à garota:
- O motor está muito quente, teremos que esperar a temperatura baixar um pouco se quisermos seguir.
Suas palavras incitaram meu desejo de agir, e me aproximei rapidamente do carro, parando ao lado da porta do passageiro, para onde a garota permanecia olhando. Então, ela me viu - uma pálida figura de longos cabelos cacheados cor de mel - e tentou gritar.
Entretanto, seu grito foi abafado por minha fria mão, que agora tocava suavemente seus lábios, ah, o doce dom das trevas. Os sublimes poderes que cada um recebia de forma diferente, e que foram de grande utilidade quando meu olhar penetrante fez a bela donzela ficar inconsciente, pendendo sua cabeça para o lado.
Jaime avistou-me e gritou algumas ofensas, mas o medo rugia em seus batimentos cardíacos, e ele não conseguiu sair do local onde estava. Foi extremamente fácil me aproximar de seu rosto e proferir em seu ouvido as últimas palavras que ele ouviria outro ser dizer, e acredito ter falado algo como "bons sonhos" ou "durma bem", mas isso é irrelevante.
Seu coração assumiu um tamborilar frenético, e o impulso de sentir esse ritmo correr por minhas veias tomou conta de meus instintos, fazendo-me cravar meus caninos em seu pescoço, sugando suave e lentamente o seu sangue quente e atraindo toda a minha atenção para o vitæ que corria por minha boca.
Jaime agora jazia no chão, morto e frio. Drenei totalmente seu sangue, enquanto a garota, inconsciente, permanecia no banco do passageiro, esperando por seu destino. Mas, fiquei em dúvida se iria realmente matá-la, pois ela parecia um alvo perfeito para um momento de terror.
Resolvi então carregá-la para dentro da antiga pousada abandonada e deixá-la atrás de uma porta, e assim o fiz, abrindo, posteriormente, todas as portas da antiga pousada.Achei um isqueiro no chão e o coloquei no bolso, e o acendi quando a garota acordou, desnorteada.
Oh, o ruflar de seu coração soou como música em meus ouvidos, e tratei de apagar o isqueiro, fazendo a penumbra inundar aquele cômodo. A garota estava em um estado de desespero tão inocente, tão doce, que acabei não resistindo e falei carinhosamente em seu ouvido:
- Corra.
Como um pobre animal assustado ela virou-se, mas minha velocidade sobrenatural era tremendamente superior à velocidade mortal dela, e pude me locomover rapidamente enquanto via ela correr pela pousada. Corri de sala em sala, de quarto em quarto enquanto ela olhava para o interior dos mesmos, e pude assim atormentá-la com a mesma visão de uma criatura não-humana.
Suas passadas largas e seus movimentos bruscos ocasionaram na queda de um de seus brincos, uma peça que parecia valiosa, e eu peguei este belo artefato rubro. A garota, assustada, encontrou a porta da frente e correu de volta para o carro, onde eu já a aguardava no banco do passageiro, com seu brinco em mãos.
Então, ela riu. Gargalhou de seu momento de terror, e ouvi em minha mente que aqueles minutos foram a ilusão mais banal que ela já tinha vivido. Isso me afetou como uma espécie de insulto, e a raiva cresceu dentro de mim.
"Wayne, as pessoas não nos vêem mais como figuras sombrias, como seres que se alimentam de vida, a idéia humana de hoje em dia é ridícula", dizia Hallowd, mas eu nunca acreditei em suas palavras lamuriosas, afinal, se temos a imortalidade, devemos usá-la da maneira que melhor nos serve, certo? E o que mais gosto é atormentar e torturas os mortais.
- Você deixou cair esse brinco.
Seus olhos se arregalaram, e ela não pôde produzir o grito que sua mente comandava.
- Não quero que se assuste, minha cara. - menti. - Eu me chamo Wayne, e vim fazer-lhe um pedido. - eu disse, esperando despertar o interesse naquela jovem beldade. - Eu gostaria que você se juntasse a mim nesta caminhada, afinal, sua beleza me encantou, devo admitir.
Pela primeira vez em minha vida imortal eu estava dizendo palavras sem pensar. Estaria eu apaixonado pela mortal? Não. Eu jamais me apaixonaria por um ser inferior. Seria ridículo.
- Minha cara, estou lhe oferecendo um presente, um dom. Gostaria de ser imortal? - perguntei, e não obtive resposta, pois seu medo a dominava. - Pois bem, eu volto quando estiveres mais calma, então poderemos conversar melhor. Tenha uma boa noite, milady.
E saí do carro, rumando a noite.
Por Nathan Ritzel dos Santos
Assinar:
Postar comentários (Atom)
Nenhum comentário:
Postar um comentário