Às vezes eu só queria ter um motivo para tudo o que faço, um significado para tudo isso. De que adianta respirar e caminhar se estou morto? Mas é a ridícula e óbvia realidade vampiresca. Hoje podemos nos camuflar facilmente entre as pessoas, podemos nos passar por qualquer mortal comum, podemos beber nos locais mais movimentados. A "vida" se tornou entediante, e permanece piorando na ausência de companhia.
Hallowd dizia que eu precisava de um par, mas eu nunca me dei bem em relacionamentos. Em geral, eles acabavam antes de começar, e eu nunca cheguei a lutar por um romance. Ah! Por que estou pensando em tais coisas?
- Maldita garota! Atormenta-me durante meu sono com sonhos e me faz acordar de dia! -gritei, e ouvi os batimentos de alguém na casa vizinha se tornarem mais frenéticos. Com certeza eu havia assustado alguém.
Eu não notei que ela havia me enfeitiçado de tal forma, a garota. Ela conseguiu cativar minha atenção naquela noite, mas, eu deveria tê-la matado. Deveria ter sugado seu sangue até a última gota, como fiz com o motorista que estava com ela.
Quando caiu a noite peguei meu conversível, um belo Peugeot 207 CC preto, e saí pelo centro da cidade... de repente alguma festa iria aparecer como mágica em minha frente, ou algo assim. Mas, um aroma peculiar invadiu o ar. Um cheiro familiar... tão familiar, mas tão diferente, tão... exótico... e logo me lembrei, era o sangue da garota.Então fiz uma curva absurda com meu carro e entrei na próxima rua à direita, seguindo aquele cheiro. Ela não estava longe, mas, havia muitos outros ao redor dela. Certamente ela estava numa festa ou algo assim.
As luzes da cidade brilhavam e ofuscavam meus olhos, mas, seu rastro permanecia intocado, quase chegando a ser visível. Numa das ruas nas quais entrei acabei me deparando com um belo local que mais parecia uma pequena cidade, pois ali haviam diversos restaurantes, agências bancárias, livrarias e ainda grandes construções intituladas "Blocos". Eu estava na universidade local.
O ar estava carregado de aromas diferentes, mas eu ainda conseguia sentir o cheiro dela, e logo a vi... saindo da biblioteca da universidade com algumas pilhas de livros nas mãos. Obviamente, andei em meio a multidão para evitar qualquer tumulto em público, mas pude ver quando ela deixou a faculdade e pegou um táxi. E eu a segui. Mas, resolvi deixar que o cheiro dela me guiasse, ignorando que o táxi estava sumindo de vista.
Logo cheguei até a casa, onde o doce perfume de seu vitae incendiava minhas narinas. Estacionei meu carro em frente à casa e entrei, saltando com facilidade para dentro da casa através de uma janela. Foi uma entrada silenciosa, que me deu o elemento surpresa.Mas, a casa estava uma completa bagunça. A garota mais parecia uma anarquista, pois havia chegado com inúmeros livros nas mãos e não foi capaz de guardá-los, apenas atirou-os no chão. E eu, como qualquer ser organizado, tratei de empilhá-los em cima da mesa, bem como abrir um de seus cadernos, somente por curiosidade.
Mas, faltava algo... ela com certeza não agüentaria ficar a noite inteira acordada discutindo sobre imortalidade, então, tratei de ir até a cozinha e preparar um café, que depois depositei em uma caneca, a qual coloquei em cima da mesa, junto aos cadernos. Entretanto, quando a caneca pousou na mesa, ouvi uma porta se abrir e o vapor do banheiro emitir um leve chiado.
Ouvi passos e um botão ser pressionado. Ela havia ligado a secretária eletrônica. "Elle? Onde você anda? Fazem dias que não ouço de você, poderia me ligar? Val."
Elle... esse era seu nome. Ah, a bela garota de olhos azuis chamava-se Elle...
"Senhorita Wess, você perdeu seu horário com o Doutor Richard na quarta-feira, gostaria de remarcar? Ligue-nos o mais rápido possível, temos boas notícias!"
"Elle, é o Jet, porque não responde às minhas ligações? Precisamos conversar, acho que isso não está funcionando..."
Algo nesse último recado incitou minha raiva, pois o jeito deste tal de Jet falar era... afetuoso. E sua voz ostentava preocupação, receio.
"Filha, você me deve explicações para esse sumiço..."
Ela deu mais alguns passos em direção à sala, provavelmente pensando em pegar algum dos livros. Ela iria se deparar com a visão de um imortal parado em sua sala, e isso poderia... não sei se impressioná-la seria a palavra certa, mas, iria impressioná-la. Aí que resolvi ir para a cozinha, de onde eu poderia ver seus longos e cacheados cabelos castanhos.
"Elle, porque o Jet me ligou perguntando de você? Porque a mamãe me perguntou de você? Porque TODO MUNDO me liga querendo saber de você? O que tá acontecendo einh?..."
Seu coração disparou.
- Vampiro... Wayne? - disse ela, e, em resposta, eu apareci na sala, no lado oposto ao que ela estava.
- Chamou, milady? - perguntei com um sorriso de escárnio. - Já tenho uma resposta sua? Já sabe se quer se tornar imortal? Pelo visto o assunto a interessou... - e apontei para os inúmeros livros na mesa com a cabeça.
Estavam diminuindo. Seus batimentos estavam diminuindo, e ela empalideceu e desmaiou. Felizmente eu fui rápido e pude segurá-la, impedindo uma violenta colisão de sua cabeça com a mesa. Oh, seu rosto, tão belo e doce, agora dormia, e eu me aproveitei da situação para passar a mão por entre seus sedosos cabelos. Senti uma vontade incontrolável de beijá-la, mas, minha resistência foi maior, e eu a carreguei para sua cama, onde deitei-a e puxei algumas cobertas para cima de seu corpo.
Fui até a porta, onde o som de passos tumultuou a minha mente e logo cessou para dar lugar às batidas incessantes na porta e aos toques frenéticos na campainha.
- Elle! Precisamos conversar! Abre a porta! - gritava uma voz masculina, que me convenceu a abrir a porta para matar minha curiosidade.
- Quem gostaria de conversar com ela? - perguntei ao belo rapaz que estava parado na soleira.
- Ah... - disse, confuso. - Você, quem é? - perguntou.
- Eu faço as perguntas aqui. Quem é você?
- Sou o Jet. O namorado da Elle. E você? - perguntou ele, desconfiado. Sua mente articulava alguma traição ou algum problema maior, enquanto a raiva crescia dentro de mim.
- Suma da minha frente.
- Como é? Você tá na casa da MINHA namorada e me manda "sumir da sua frente"? - gritou ele.
- Não falarei duas vezes. Saia daqui ou sofra as conseqüências. - a raiva já havia me dominado, e era somente uma questão de tempo para que um estrago maior fosse feito.
Jet apenas me fulminou com os olhos. Ele sabia que eu era alguém perigoso, ou, pelo menos, tinha uma leve idéia, afinal, seu coração estava acelerado demais, mesmo para quem estava com raiva, e eu diria que ele batia num misto de raiva e medo.
- Vai se ferrar! - gritou ele, e partiu para cima de mim.
Seu punho fechado acertou meu rosto, mas a dor foi mínima, ao contrário de sua mão, que, pela sua expressão facial, havia sido ferida. Rapidamente levei minha mão direita até seu pescoço e o ergui no ar, apertando com força. Suas mãos se agitavam freneticamente tentando, em vão, remover minha mão de seu pescoço. Sua respiração começou a se alterar, e tive certeza de que ele respirava com dificuldade. Ele agora se debatia ferozmente e ainda bufava de raiva e terror.
- Já teve o suficiente? - perguntei friamente.
- Já... já... - resmungou, então o soltei.
Jet emitiu um ganido desesperado, e respirou profundamente para obter o ar que antes estava lhe sendo negado. Seu pescoço ostentava uma escura e profunda marca roxa.
- Wayne.
- O... que? - perguntou ele.
- Meu nome. - falei calmamente. - Wayne Lynch Walters. - e voltei para o meu carro.
Por Nathan Ritzel dos Santos
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