sábado, 12 de julho de 2008

Amor?

"-Ele é o típico cidadão brasileiro, acredita em tudo que passa na televisão, ama futebol, e tá sempre apostando na mega sena"
-Pois é, e como eu fui me apaixonar por ele?
-... não sei...
Ela coçou a cabeça com a pergunta da mãe, entraram na livraria.
-Ele parecia atraente na época, diferente...
-Ele era diferente?
-Não...
As duas se olharam. Ela podia ver que por trás daquelas palavras que sua mãe dizia tinha amor, mas medo também. Se ela, sua mãe, não ficasse com ele, seu padrasto, com quem ficaria? Eles aprenderam a se suportar, ela aprendeu a sofrer em silêncio, ele se desligou do mundo inteiro, olhando televisão e novelas, e absorvendo tudo de lá, aplicando o que via em sua própria vida, afastando ás duas, mãe e filha.
Mas vamos voltar á mãe e filha. A filha ama a mãe, odeia a mãe, despreza a mãe, idolatra a mãe... é inexplicável. Ela vê a dor no rosto da própria mãe, do seu próprio futuro.
-Eu nunca me apaixonaria por um cara assim...
-Mas filha...
-Eu sei, ele é uma boa pessoa. Eu nao desgosto dele.
E isso ficou em sua cabeça por um bom tempo. Começou a perceber como a companhia da mãe era boa, e como a deixava com vontade de não fazer mais nada além daquilo, além de ficar lá falando. O amor da mãe por aquele homem era algo inexplicável, mas o que os unia era a certeza de que queriam passar os restos de suas vidas juntos. Não era necessáriamente amor, isso se chama companherismo.
A cabeça dela girou, e parou como sempre em si mesma. De que modo isso a afetaria? Não queria mais pensar nisso, queria aproveitar o momento, queria gritar. Coçou a cabeça de novo.
Em casa tudo é diferente, naquela casa era. O nó na garganta havia voltado simplesmente por estar lá, se perguntou se a escolha que havia tomado era certa, se devia mesmo ter ido embora. A resposta relutante que veio do fundo de sua mente foi 'sim, voce fez isso por um motivo maior'. Fechou os olhos e continuou o teatro. E cada cena daquele filme que elas olhavam juntas, ela absorvia totalmente. Tudo ao seu redor indicava que devia mudar, que devia querer mudar. Ela estava em pânico, continuava sem saber como. As limitações do ator principal nao o impediram de fazer o que amava. O que ela amava?! Não sabia, queria saber, mas se ela nao soubesse, quem iria lhe dizer? Nenhum livro, nenhuma música, nenhum perfume, nenhum filme, nenhuma foto, nenhuma flor. Ela achava que conhecia tudo, mas quando na verdade, não conhecia nem a si mesma, nem a ponto de saber o que realmente amava. "Eu não sei tudo, eu tenho que parar de agir como se soubesse". E assim, se apaixonou pelas imagens que via, observou bem os formatos, sentiu o gosto como nunca antes, ouviu os sons como jamais ouvira. Não sabia o que amava ainda, não sabia o que queria, mas começou a perceber um pouco mais das coisas, começou a tentar descobrir mais sobre si mesma, mesmo quando o ácido voltava a corroe-la, levantava-se e fazia uma das coisas que ela tinha CERTEZA que amava: Ouvir música e fechar os olhos, imaginando coisas inimagináveis."

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